…ssob o liso do vidro corrre a rrua. osz olhoss asssistindo osz olhoss asssistindo na volta do reflexo, imagem transssparente atravesssada pela rua que o movimento do ônibusss inventa, a janela recortando os ezzatos ssegundoss de um gesto qualquer e humano, sussessssão de esses sssem nenhuma causa a não sser os olhos asssisstindo os olhos asssisstindo apaixxxonadamente enquanto o acaso – o outro do essspelho: a rua –me perdoa, indiferente…
Viajo
vendo
só
vendo
vi
vendo
ajo
só
vendo
do dentro do ônibusss: o asssento mais exxterior,
exxtremo oposssto ao motorisssta,
à essquerda de quem entra,
de frente para o trocador de perfil:
o ponto mais obsscuro, obssceno covil azzul de curvin e fórmica:
o lugar onde quase ninguém
TV
e no limite da vertigem a ssenssassão de ser um OLHO um enorme peixe OLHO pairando na água abssstraída do incômodo motorrr, rrrumorr transslímpido na água de arrr imóvel que a aççção ssúbita do SOL estilhaççça em polida superfícccie de esstrela fria espelho olho puro ouro CEGO:
o INDIZÍVEL alcançado pela dissolução da carne
“Cego e/ou sem ego o que serei e/ou?
Édipo e/ou Prometeu?
Errante e/ou acorrentado?
Multiplicado e/ou repartido?
Cego e/ou tudo vendo?
Porque, afinal, quem assiste? E existe o que se assiste? Essa a dor infinita de Deus?
“Tudo é cinema!”
foi o que Mônica disse depois de fumar seu primeiro baseado…
“Tudo é cinema!”
: uma idéia na mão, uma câmera na cabeça.
Os olhos – de vidro:
quem tem medo, não chora.
Viajo
(E era preciso inventar uma história)
Desafiando vi (cri) aturas cruzo o espaço ficcional do drama: saí pra comprar cigarrros e possso não voltar “nunca maisshh” – você me dizzz “nunca maisssh”: ácida eferveccênccia me ulssscerando o dezzzejo, a impressssssão ezzata de que não ezzisto: ozzz OLHOS brilhantes e quentes pulsando dentro apenas olhos pulsando o coraççção nos olhos pulsssando vidrados vibrando no diapazzzão da matéria desconhecida gente – o corpo luminoso do rua o universo inteiro: o INFINITO de uma rua em que desconheço fim e começo.
Viajo. Só e sem palavras, sólido.
(Sim, era preciso inventar uma história. Aprender a depurar essa dor para não mais transmiti-la. Construir, enfim, a catedral onde tu virás descansar teus sonhos de morta. Dar-te finalmente um nome, e assim transfigurar toda miséria em poderosa força que resgate o vigor do verbo encarnado em letras sobre o branco do livro. Idéia nova que é um desejo de reconciliação com a carne e que me veio através de ti, meu corpo)
Viajo
Sou luz, sou pedra.
A luz é cega. A pedra, sólida.
E há a rua, rio que flui feito escultura móvel
E se desdobra sempre nova, nova
É que perdera a CHAVE
Perdera a chave talvez apenas porque CHOVE
pequeno incidente instaurando o caos – a ruptura do cotidiano provável – a ordem estilhaçada – e novamente a rua – onde chove nos limites do corpo descoberto em secreta alegria
C H O V E
levemente como se não chovesse uma chuva inexata que não molha nem se vê chover e que envolve o corpo em movimento: C H O V E
chuva chovida dentro num antes sem tamanho de carícia viva
C H O V E
e é quase um segredo.
Chove a sensação da primeira chuva e eu não me reconheço nessas caras maceradas de sexta-feita à tarde e me sinto líquido e preciso em cada gesto e tanto que de súbito faço sol na perplexa solidão da praça pois, se já não há mais o poste de prata torneado onde o avô e os meninos se entregaram certo dia à memória também de prata de uma câmara, nem há mais o rosa do Palácio, nem a árvore enorme que sombreava os brinquedos que a serpente de metal comeu, há ainda as palmeiras e o sol que faço e se reflete nas pernas da mãe mais bonita do mundo em seu vestido amarelo que atraía lacerdinhas e ela me soprava se me caía um no olho porque ardia de fazer chorar como me ardem agora os olhos vermelhos de tanto brilho e eu chovo por dentro um choro que é a chave que se encaixa no vazio da praça sob o sol que de lembrança invento e então é de novo o caminho tão natural da infância, a exata distância entre a Casa e o Mundo: a Rua – o sempre-novo que lhe vinha dia-a-dia em volúpias de ver, no breve quase-infinito percorrido de olhos atentos e mãos dadas com a Mãe até a Praça Centro do Mundo onde o Avô reinava,

umbigo da Praça, de terno escuro e chapéu sob o sol e o menino então se soltava da mãe e corria para e explodir num susto contra o jornal aberto do avô e lhe cair nos braços numa desordem de letras e cheiros, tinta, tecido e velhice, ou vinha sorrateiro por trás para lhe roubar o chapéu sem ser visto e reaparecer de chapéu – a seda ainda úmida em minha testa – diante dele deixando agarrar-se pelo o Avô que o xingava amorosamente de tudo que era nome para horror de sua Mãe, e o assustava com seus misteriosos dentes móveis que quase lhe saltavam da boca – e às vezes ele lhe dava umas balas de tamarindo que sempre carregava no bolso para não fumar – azedinhas de cortar o céu da boca e que a Mãe não queria deixar comer “porque seu Avô é doente” – mas que a gente chupava – suprema delícia – escondido e com nojo.
A Doença do Avô: o eterno catarro suspenso numa rouquidão de gato e cujas ostras verdes cuspidas em intervalos regulares efervesciam no chão com coisa viva e que às vezes a gente examinava – isto contém a morte, eles dizem, mas onde? – e nós remexíamos com varinhas, doutores…
(O Tempo arranca substância dos espaços da infância. A memória é a medida das coisas. E o espaço desfigurado em novas ruas e calçadas largas conta a história desse tempo dilacerado).
Mas agora chovia mesmo: a chuva óbvia.
La folie de l’eau num delicioso excesso de festa inundando a praça.
Houve um correr de gente atrás do abrigo tardio sempre.
Só ele não correria: só ele sagrava a chuva como o chafariz: exultantes.
(…e a chuva lhe desfiava as roupas e o cabelo, escorrendo salidoce pela enorme boca do todo-corpo distendido num mergulho vertical de membro tensionado: era o mar de novo e ele o sabia.)
Caminhou lentamente até ficar só no meio da praça: era de novo o secreto senhor de seus espaços.
A Chuva
Lava
leva tudo
em cintilâncias:
um fogo frio de metal e vidro, a chuva:
um chão de céu inverso cheio de estrelas –
estrelas frias de tantas gotas estourando no asfalto cor de noite
lavado, rebrilhando…
Quanto!
Sob as marquises havia uma excitação sem proveitos. Desatados de seus destinos, subitamente livres, eles confundiam-se em impaciências e xingavam a chuva, coitados… Só ele só gozava do prazer de estar molhado, em comunhão com a chuva.
(E na volta para casa, rio –
rio da secreta liberdade,
rio de feliz e rio ainda mais porque se aquela sensação talvez não resistisse à própria vida
ainda assim será para sempre)
“De que te serve
o OLHO
em tua busca,
Se não te vês?”
Da rua, sobe o cheiro primordial do pão.
No quarto, mais silêncio que escuridão, mais solidão do que tudo:

OLHO
FIAT LUX
O fósforo refulge e se apaga –
Intenso e fátuo relâmpago –
Que revela um Gênesis
Herege e absurdo:
No princípio era o Olho.
E Deus disse:
‘Faça-se a Luz’.
E a Luz fecundou o Olho.
E o Olho foi o útero de Adão.
E Deus fez Adão à Sua imagem,
Que ao Olho Se dava
E no Mundo Se refletia.”
O olho não vê o olho
Porque o olho está no mundo
E o mundo está dentro do olho:
Ser Homem é já ter sido tudo.
Papo de doidão em hotel barato. Clima de cinema, letreiros de neon, só que em uma transversal do Catete… Eu tinha muito tesão naquela moça. Depois, ela dormiu e eu fiquei na escuridão de olhos fechados, de olhos abertos, de olhos fechados, de olhos abertos, de olhos ab
“O que não é nosso não pode ter cheiro: o disfarce do conforto, mínimo distanciamento que torna suportável a solidão: um bem-estar de lençóis limpos… Ou ao menos não pode ter este cheiro, úmido e frio, de suores abafados, odor de antigas dores gastas…
No banheiro não há água quente. Nem papel. Os canos entupidos empoçam a água na pia e no chão do chuveiro. Chuveiro… um fino fio de água fria que, mesmo fechado, goteja – como a torneira e a descarga – insolúveis segundos de vidro que estouram no ladrilho branco, também gasto e frio… No quarto, o rádio não funciona. O ar não funciona. O papel se descola das paredes. E, no tapete, manchas, antes quase invisíveis, parecem se despregar do chão, sob a luz única e negra e horrível, para formar uns desenhos em relevo, feito mapas, que parecem pulsar, flutuando, moventes e vaporosos…
… E mais esse cheiro – anônimo de muita gente, mofo de lembranças, de tantas energias condensadas neste pequeno espaço – fantasmas sussurrando promessas, confidências e despedidas. Um cheiro de guardado, de banhos mal tomados, de tudo mal feito e às pressas…
E nós dormiríamos ali. Nós, esses dois – tesão de bichos…
– Aperta um…
– Melhor fumar no banheiro…
– Já fumou assim?
E ela enfia o baseado na boca pelo lado da brasa e me sopra a fumaça direto no nariz.
– Assim bate mais…
É, bate, bate sim…
“… a solidão me dói…” – ela diz e eu me lembro da música… de vinte anos atrás…
Dói a solidão? E o medo, dói? O botãozinho apertado – “dói” – rugoso e róseo – “não” – tua última castidade – “não…” – um rio ou uma cela? – “não…” – meu menino ou minha tumba? – “não…” – fugindo, sem jeito, o corpo meio que se arrastando numa impossibilidade de músculos abalados pelo peso de um outro corpo obstinado – tartaruga lenta e centenária que tenta se mover num meio que não é o seu e afunda no terreno movediço, o corpo vergado corcoveando cada vez mais sem ânimo para resistir ao peso do casco incômodo – e tu te arrastas na arena vasta de uma cama, cotovelos, mãos, pés, joelhos, buscando apoio num movimento desarticulado, pois totalmente estranho, novo: aqui nunca antes. e te arrastas, até finalmente o limite da cama alta e redonda em súbito abismo – e quem sabe seja o mar o carpete azul? – e quando avanças um pouco mais –“mais..” – a cabeça pendendo, inerte, no vazio – falta pouco agora – o corpo/casco à tuas costas realiza o fino equilíbrio do pêndulo, compensando e anulando todo o esforço – e então é o vazio sem asas: os braços inúteis, as pernas presas – e a cabeça latejando, congelada no ar como um suicida na foto de jornal – mas, então, e só então, ao ver o grosso talo de metal que sustenta no ar a cama como se esta fosse um cogumelo engendrado por tantos espíritos úmidos e lúbricos onde tu te espalhas íntima e lânguida sílfide – só então torna-se estranhamente bom e pulsa em espasmos de estrela – e de teu corpo sentes brotar finíssima película de suor, sereno que te recobre a pele líquen enquanto uma multidão de girinos invade tuas entranhas reviradas ressoando em escuras cavidades invisíveis e naturezas tão férteis e díspares se misturam e se confundem para renascer de novo por nossas carnes líquidas de plácidos caracóis que se deixam escorrer exaustos de tanta vida e quem sabe sejamos agora flores ou astérias