“O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina.
Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”.
Antonio Maria
“Era tudo falso e profundo, irreal ao mesmo tempo.
Eu era pela tagarelice total.
A gente devia apelar para a maluquice.
As pessoas já tiveram a sua cota de enredo e personagem.”
Henry Miller
Imagine um palco.
Imagine que você está na platéia e, por um motivo qualquer e desconhecido, você está sozinho – e isso te tranquiliza mais do que oprime, porque o vazio te acolhe e o que você verá será tão secreto quanto um sonho e não te exigirá opinião nenhuma. Imagine então que estes pensamentos te acalmam e você se entrega inteiro a ver simplesmente, no silêncio, o cenário.
À sua esquerda, ao fundo, duas escadas em espiral sobem entrelaçadas de tal modo que o começo de uma é o fim da outra.
No lado oposto, uma tela de cinema corta, oblíqua, o palco.
Em primeiro plano, à esquerda, uma cama de casal – branca, hospitalar, de ferro batido. No centro, uma escrivaninha e sua cadeira. Há ainda uma bergère alta, um cabideiro de roupas, livros, papéis, a máquina de escrever e tudo mais que você imagine necessário para alguém que viva de escrever. Fora do palco, , um projetor de cinema que passará com sua luz sobre a cama para se projetar na tela. Uma rampa acompanha a trajetória da luz da cama até à tela.
Agora tente fixar o cenário em sua mente. Tome-o para si como se fosse seu, pois trata-se apenas de um quarto. Mais um quarto…
Um quarto de comprimido,
um quarto de hora,
m quarto de amor,
um quarto de história.
Um quarto…
E então as luzes se apagam e você mergulha na escuridão e no silêncio.
Mas antes que você se exaspere,
o palco se ilumina com a luz do projetor que sobrevoa a cama e expõe na tela o corpo nu de uma mulher que dança para os olhos de uma câmera atenta, minuciosa, apaixonada.
Na cama, dois corpos estão inteiramente cobertos por lençóis
– lençóis de seda antigos, de um branco aperolado pelo tempo.
Ouve-se o som de uma caixinha de música.
Um dos corpos se ergue, talvez despertado pela luz e pela música.
É um homem, e ele olha a tela com encanto. Vê a luz e quer tocá-la. Ao fazê-lo, seus dedos se projetam sobre a tela e quase obscurecem a imagem da mulher que dança. Ele deixa-se ficar assim, acariciando a imagem com a sombra imensa de seus dedos.
Uma voz em off sussurra como um vento pelo palco: “Ela é a luz, você não vê?”
(Mas, jamais saberemos se Ele a ouve ou não).
Então, Ele se levanta e caminha pela rampa em direção à imagem. Ele está nu e a sombra de seu corpo quase toma a tela. À medida que avança, sua sombra vai diminuindo, diminuindo…
A mesma voz sussurra, perplexa: “Quanto mais perto, mais longe…”
Ainda assim, ele continua, e quando cessa o espaço e ele e sua sombra se encontram – a carne já grudada à imagem da mulher que o inunda, o corpo nu tomado de tatuagens que se movem na pele que se esfrega na tela lisa, exata, fria – ele se exaspera, pois era outra a substância que esperava, era vida o que as mãos buscavam – e não solidão e sonho.
Enfim, quase em desespero, ele súbito se volta. Mas de imediato a luz toma-lhe de assalto os olhos num só golpe: “Cego!”, ele grita e cobre os olhos com o braço, num gesto inútil.
Imediatamente, a luz se apaga e, na escuridão, ouve-se o despertador que toca de repente, do modo insistente e estridente com que tocam os despertadores, e a gente acorda num susto de dentes trincados: é o outro corpo na cama que desperta, atônito e alerta.
Ele traz o cenho sobre os olhos concentrado em tentar lembrar o sonho – que ainda assim se desvanece no ar feito um perfume – e com assombro acaricia a cama como se a outra metade lhe faltasse e vagamente estranhasse não encontrá-la.
Então, finalmente, Ele se levanta. Veste apenas uma calça longa de pijama branco listrado de azul. Espreguiça-se. Caminha até o limiar dos bastidores e pára. Um outro homem o encara, anacrônico Baudelaire, Zé Pelintra da Lapa, dândi malandro no branco do terno de tropical inglês. Os dois se olham com interesse, mas apenas Ele, o do pijama, faz os gestos característicos de alguém que se prepara no espelho de manhã, enquanto o Outro, imóvel, declama:
Ele – sempre elE
Sob a máscara do espelho.
Rever – dia-a-dia, reveR
Esse estranho essE,
Feito de sonho,
Que só meus olhos não vêem…”
O dândi volta-se para a platéia que é você e diz, depois de uma pausa teatral:
“Os versos são d’Ele e Esse sou eu…
Mas Eu sou Ele e Ele sou Eu.
Só que eu, vivo solto no tempo e ele, confinado no espaço…
É dessa confusão que falam os versos…
Mas na verdade somos um.
Mesmo que só às vezes a gente coincida,
Ou quase sempre se interrogue com estranheza…”
O do pijama encerrou a mímica mecânica de todo dia e caminha pela casa, roendo um pão, beliscando um biscoito, enquanto lê uns papéis que pegou na escrivaninha. Os dois, Ele e o Outro, se cruzam, mas não se esbarram, pois não se vêem.
Então o Outro fala:
“Nunca antes estivemos tão distantes… Mágoa de amor, ele diz. Ressentimento, ele pensa. Mas, no fundo, é aquela dor, a genuína e incomunicável dor, sem causa nem ofício, e que encontrou n’Ela objeto e pretexto. E assim, a dor se adia na ilusão de que só a vingança a aliviaria. E do adiar-se na vingança vive a dor, feito uma azia, mal-estar que se atribui à boêmia… Dessa tolice também são feitos versos. E é desses que ele espera mais sucesso – “só pra mostrar a ela”. Como em qualquer samba-canção, poema de cordel, tango de Gardel, Bolero de Ravel…“
Neste momento, entram em cena as Fantasias.
Lassas e marciais, sumárias na nudez, expressas feito clichês. Elas o cercam e seduzem, vestindo-o de chapéu-coco, bengala e charuto, enquanto outras o adulam com papéis e contratos que ele rejeita com gestos de desdém. E eis que Ela surge. Vem vestida de nuvem, quase nua, ela vem, sob o vestido esvoaçante de cinema e seda. Ela corre para os braços d’Ele, mas esbarra no imóvel desprezo que a aguarda e nele escorre indefesa e só não se desfaz no chão porque, num golpe de mão, Ele enlaça-lhe a cintura e a ergue de volta num abraço que é já o primeiro passo de uma dança, valsa clássica que se dissolve num tango um tanto erótico, um tanto ingênuo. Mas quando chega a hora do beijo, Ele a larga e Ela cai no vazio inesperado de outros braços que a arrastam para fora. E Ele impassível a vê ser levada pelas Fantasias que o servem agora como fazem aos tiranos quando consentem.
A luz volta ao normal. O Outro retoma sua fala:
“Seria ridículo, se não fosse tão humano… Seria mais humano, se não fosse tão pequeno. Mas preste atenção, espectador, apesar de tudo, é o Amor que o move. O Amor – e todos os sentimentos contraditórios que dele emanam e nele se embaraçam…”
O Outro dá de ombros e vai sentar-se na bergère para assistir o do pijama já envolvido em seu trabalho diário de escrever.
Ele bebe? Também. Muito. O que talvez explicasse a pompa com que fala sozinho, não fosse ele um delirante. E ainda que o reconheçamos personagem e dele exijamos essa ficção chamada realismo, não custa reconhecer que na intimidade todos somos loucos ou tramamos em silêncio sê-lo.
Ele fala demais sozinho, é verdade – até por força da profissão: o ofício de escrever favorece o solipsismo e não há escrita que não seja mais ou menos metafísica.
Um simples bilhete que perdura, e que, de perdido, salta súbito da carteira ou da gaveta, pode ser a chave para errâncias por um tempo que volta vivo, à flor da pele – e como dói, às vezes.
Agora é Ele quem se vira para a platéia e fala:
Eis do que se trata: escrever uma peça para TV baseado num conto de Machado de Assis. A história é ótima: um maestro quando jovem e recém-casado quis compor uma cantiga em louvor à mulher. A coisa não vai adiante e a mulher lhe morre logo dois anos depois. A cantiga vai parar na gaveta e nas décadas qseguintes, ele, que secretamente queria ser compositor, nada produz. Velho, já sentindo que a morte próxima, decide retomar a velha cantiga e acabá-la, naquele mesmo dia, do jeito que der. Põe o cravo diante da janela e começa a dedilhar o trecho já criado pra ver se dele tira alguma continuidade. Nada. Na casa frente, repara na janela um casal de jovens recém-casados e a coincidência o anima. Mas, nada. A música não vem e ele desiste.
Ele vai até à escrivaninha, pega um livro aberto e lê:
“Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar à toa, inconscientemente, uma coisa nunca antes cantada nem sabida, na qual coisa um certo lá trazia após si uma linda frase musical, justamente a que mestre Romão procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e à noite expirou.”
Ele faz uma pausa e comenta:
A mim, já me bastaria saber contar essa história. Ou qualquer outra. Mas aí, eu sento aqui e, desta máquina de costurar sonhos, o que me saem são poemas e fabulas, sonhos e pesadelos.
Ele volta a escrivaninha, pega uma folha e declama, fingindo ironia no tom dramático:
Duas vezes decaído, primeiro como anjo,
Depois como demônio,
Ele já não diz mais: “Eu me recuso”,
Mas apenas: “Eu não mereço”.
“O que pode haver para além das trevas?”
Ele se interroga.
“A origem do fogo?”
“O céu de novo?”
(Pois, apesar de tudo, ele ainda ousa…)”.
Ele acaba de ler, faz uma bolinha de papel e a atira para o Outro.
Não acho ruim… diz o Outro.
Pois é, mas eu preferia saber contar histórias grandiosas, tramas cheias de meandros, e não apenas fazer frases que se alongam às vezes só pelo prazer de se esticar até a voz perder o fôlego. E depois, tudo sempre me soa tão genuinamente triste, dramático e solene que me envergonho.
– Você quer A Grande Obra! Contente-se com um livro – inacabado e inexato como a vida.
– Não vende…
Ele vira-se para a platéia (que é você, leitor hipócrita) e diz:
Devo alertá-lo de que se trata do diálogo de um bêbado consigo mesmo. Friso o bêbado apenas para marcar o caráter alegórico do diálogo, que talvez, em condições normais, se daria no banheiro ou num transe desses que a gente tem quando está no trânsito, entre a casa e o escritório. Nesse sentido, trata-se de um diálogo realista – no sentido que pode acontecer a qualquer um a partir de um certo grau de solidão, de abandono ou de álcool, acessíveis a qualquer cidadão que se disponha a tanto, seja por amor profundo à verdade, seja pelo gozo irreprimível de estar fora de si. Obviamente um médico classificaria um tal diálogo como delírio. Que seja! Mas repito, friso, destaco, assinalo: acessível a qualquer um. E tendo feito esta ressalva, retorno ao diálogo monologal comigo mesmo…
A luz se apaga e o projetor se acende.
Lá está o homem nu, com os olhos cobertos pelo braço.
Ele diz, sem descobrir os olhos:
Com meus dedos de sombra, pensei acariciar o sonho.
E, com a avidez do gozo, quis enlaçá-lo.
Ilusão sobre ilusão,
Teu resultado é a escuridão
Que agora me consome.
Cego, o que serei:
Édipo ou Prometeu,
Errante ou acorrentado?
Sou luz?
Sou pedra?
Falta-me vida
Ou será apenas que tudo se passa aqui,
Dentro,
No escuro dos olhos, sob a luminosidade dos sonhos?
Uma voz feminina responde em off:
Por que tanta dor,
se nunca antes te havias visto?
Não tomes isto por escuro,
Nem ergas um muro onde não há nada.
Fui eu quem te cerrou os olhos,
Para que o Mundo coubesse em tuas mãos,
E o tempo te aparecesse infinito.
O projetor se apaga.
Ele está no centro do palco, bêbado.
Beber… Sonhar… Talvez dormir…
Enfim, que diferença faz, beber ou não beber, se Deus não existir? E mesmo que ele exista – ou não exista – seja como lá for e até por isso mesmo – a dor será sempre isto: perversa ilusão, gozo inverso de sentidos exaustos do comum…
Falsa dor – e, no entanto, mais genuína do que o amor, porque incomunicável… Mas, falsa. Falsa sensação que substitui o vazio pela falta – a irremediável nostalgia líquida do útero – que só na morte encontrará termo.
Mas – e se nem na morte? Esse o temor que me agarra à vida: o temor de tornar eterno não o sofrimento, mas a falta…
Beber… Sonhar… Talvez dormir… Morrer e talvez acordar…
Ele volta para a máquina, certo de ser Hamlet. Senta-se, de costas para a platéia, que é você, voyeur quase involuntário desse pantomina verborrágica.
Agora é o Outro quem fala:
O que sucede é que ele perdeu o amor. E não há solidão ressentida que não tenha um tom patético. Ele perdeu o amor e o quer de volta, mas pressente que o perderá de novo se não se tornar outro – se não começar de novo, do ovo, do zero, Ivo viu a vulva, bê-á-bá do amor. Digo isso só para pedir muita paciência para o monólogo que virá a seguir, e que certamente quer mais comover do que instruir.
Ele fala:
Queria te falar… Queria te dizer, mas não saberia – como sempre, eu mergulharia num fluxo incessante de palavras que construiriam justificativas que iriam se decompondo em acusações, quando, no fundo, tudo que eu gostaria de dizer, mas não direi, seria simplesmente: eu te amo. Mas eu não diria – porque te ver ou ouvir tua voz me leva de volta ao vasto deserto onde o desejo se mistura com a dúvida e isso me torna violento em vez de terno, e isso me devasta e me consome em silêncios que são de pedra ao invés de seda; e então eu te comeria, voraz feito fera que um dia devora o tratador – com o mesmo vigor redobrado pelo rancor de saber que só a jaula permanece, que só as grades me pertencem – e que por mais que eu te foda, seja eu fêmea, seja eu fera, nunca te saberia sonegar o prazer que está em ti, em ti que te sabes dar – e não em mim, que só sei fingir.
E fingir e recontar-me – tigre de papel e letras, escravo deste tear onde me recrio a selva que não vi, para esquecer o exíguo espaço do cativeiro em que nasci. Só conheço a jaula, mas sonho – sonho conquistar o mundo, quando o mundo que vi é cativo destes olhos de escravo. Derramei sobre o mundo minha miséria: fosse Paris, Nova York, Atenas – fosse onde fosse, era sempre eu, e sempre lá, a jaula. E agora, já nem sei se sou o que lembro ou este que sonha. Onde estive, enfim – se nunca saí de mim? Em ti? Foste como uma ilha que percorri com ânsias de estrangeiro desterrado. Um enigma. Mão estendida entre as grades. Raio de luz que me atravessava a cela. E como te odiei por isso – por me lembrares que fora de mim havia um mundo.
Não, eu não saberia te dizer – nem perdão, nem obrigado, nem te amo. Porque é tarde já.
Porque eu quero sempre que seja tarde. Porque eu quero sempre que o que reste seja isto: a vastidão do sonho em que me engendro sombrias selvas, mas, sozinho – sempre.
Porque prefiro a punheta ao amor. Ou o simulacro das noites únicas: “Never more” – crocita o corvo que vive em mim como um segundo corpo.
Não – nosso diálogo seria exatamente isto: eu te ludibriando com palavras, te enganando com sonoridades que eu mesmo creio tão sinceras, só pra ver brilhar esses teus olhos e te fazer esquecer que baby, te amo, nem sei se te amo…
Não, eu não saberia te dizer… Prefiro te invocar de novo – Evoé, Eva. Mais uma vez te materializar com minha voz da mesma matéria de que se fazem os sonhos, para te trazer quase ao alcance da minha boca e te dizer de novo: “Não!”
“Os culpados perdoam. Os inocentes, se vingam” – Ouvi isso num filme de Bresson – mas como suportar o peso de tua inocência se o gozo imaginário da humilhação me persegue ainda – e até quando?
Imaginar que de perdão em perdão, tu te tornarias minha, só minha – que tu te anularias em face da óbvia gratidão. Mas tu percebeste cedo minhas mãos de ferro sob as luvas de pelica. Tu viste a face da fraqueza sob o disfarce da bondade. E nem por isso foste embora.
Era outra coisa que te prendia a mim – era alguma coisa de bom… Eu não saberia dizer o quê – e tive medo…
Silêncio. A luz vai caindo lentamente para simular a passagem das horas até à escuridão completa.
É possível escrever no escuro… Eu gosto… Sei onde estão as teclas, mesmo quando me faltam palavras… E os vizinhos não podem reclamar… Tecnicamente eu estou dormindo… Escrever no escuro ou de olhos fechados… Escrever no escuro e de olhos fechados… Escuridão sobre escuridão onde eu sempre espero encontrar comigo mesmo. E então, de súbito, se me abstraio do barulho medonho desta máquina, é como se fôssemos uma coisa só, usina de sonhos que avançam num fluxo líquido e avassalador sem o conflito das letras ferindo o branco da página, sem a insegurança do sentido, essa prisão, – só a espontaneidade mecânica da alma-máquina recortando delicadamente o silêncio até que o tempo e o espaço sejam abolidos e então finalmente enfim possa ser de novo Ela – tão fresca quanto no primeiro dia. Eva invocada pelo verbo viril do meu desejo delirante e doloroso. E aí tu vens: toda luz e voz tornada carne… Tu vens e eu sou feliz… Entre nuvens de chuva e trovões, vinda do ventre da Natureza… Tu vens…
Ouve-se o som de uma tempestade de verão.
Trovões ressoam no azul dos relâmpagos.
E então… Ela chega! Finalmente, de fato, Ela chega.
Ela vem: com a capa de chuva e o chapéu de Humphrey Bogart, sem as calcinhas de Sharon Stone, Ela vem.
Ela entra, já despindo a capa respingando chuva, deixando ver o contraste da pele muito branca contra o vestido negro, atirando o chapéu e soltando os cabelos úmidos, os longos cabelos luminosos – e a boca de lábios em polpa de vivíssimo vermelho vem balbuciando palavras como se conversasse com os peixes.
Ela entra, ingenuína – com seu jeito de não se sabe se sonâmbula ou insone… Ela entra, caminhando num passo que segue sobre a linha inexata que separa a vulgaridade da inocência – ela vem, puta velha cheia de graças de menina, feminina, e avança, vinda do fundo, acendendo as luzes…
– Você…
É tudo que Ele consegue dizer, porque. como sempre, se sente oprimido por uma vergonha que se expressa em pompa de palavras poucas e anacrônicas – sonetos duvidosos onde a vida exigiria um rock and roll…
– Como foi que você entrou?
– Eu ainda tenho as chaves…
– Mas como é que você chega assim, sem avisar..?
– É que eu nem pensava em vir… Na verdade, eu estava em São Paulo, tomei um avião e vim… Mas fiquei com medo de avisar e você dizer não… Aí eu vim voando… Sem pensar…
– Na velocidade da luz…
– Você ainda sonha comigo?
– Acordado ou dormindo?
– Os dois… Porque tem vezes que eu tenho a certeza que você está pensando a mesma coisa que eu naquele mesmo instante, do outro lado do mundo. Você também sente isso, não sente?
– Sei lá…
– Fala… Foi pra ouvir que eu vim…
– Verdade ou falsidade… É esse o jogo? Pois é, quando eu digo que não sei, eu quero dizer que sim, que sinto; e que não, não creio… Que o falso e o verdadeiro se misturam toda vez que penso em você… Que às vezes eu ainda acordo e acaricio a cama pensando que você está ali, logo ao lado, e por segundos muito longos meus dedos sentem teu corpo no vazio…
– Você ainda sonha…
Ele gira novamente a cadeira, se voltando para a máquina e se pondo de costas para Ela.
Ela se aproxima por detrás da cadeira. Ele pega o espelho que tem sobre a mesa. Olha para ela através do espelho.
– Fantasmas não aparecem nos espelhos… Ela diz para os olhos dele no espelho.
– Eu quero ver meus olhos te olhando… Eu quero ver o que meus olhos vêem quando vêem os teus olhos… Eu quero ver para que nenhuma lágrima corra, nem minha voz estremeça… Eu quero ver – com olhos duros e exatos como duas lâminas capazes…
– Isso você não pode ver… Disso você só pode dizer que é ou não é… Mas ver, você não pode… E se você pensa que vê, pode ter certeza que se engana…
“Ela é a luz, você não vê.”
É o Outro quem diz, aparecendo do nada, num tom afirmativo e enfático.
E continua:
– Quantas inflexões é possível dar a essa frase? Várias – de alerta, de interrogação, de lamento. Mas a ênfase deve ser sempre esta: a de que algo sempre te escapará sempre, dos olhos e das palavras, mas sempre estará lá, sensível no fundo de tudo que é motivo de êxtase ou de dor, de tudo que for flor arrancada do caos. Do caos, única forma concebível de Deus, que jamais se poderia pensar submetido à ordem, mas que, a despeito disso, é um músico que dança, e por isso exala, da polifonia plena, um ritmo feito de tonalidades e pausas que se alternam quando temos ouvidos mais que olhos…
– Chega! Ela diz. – Não vale a pena a gente se perder em literatices! Nós somos Os Amantes que se reencontram e temos pouco tempo…
(O silêncio e os gestos que se seguirão são a concessão que Ele faz ao realismo, tempo que Ele se dá para tentar engendrar o andamento da trama supostamente secreta com que quer encobrir a vida e supõe mantê-la sob controle, enquadrada numa seqüência que aparente um sentido para isso que permanece imóvel e, no entanto, pulsa. Ou assim Ele sente, enquanto prepara outro uísque e pensa simplesmente em como comer essa mulher, amada e filha da puta, enrolado num drama mais de Otelo do que Romeu.)
Ela passa a mão no rosto dele.
– Saudade de você…
– Eu posso imaginar.
Ele pega um cartão sobre a mesa e o lê:
– “Por que recorri novamente à escritura? Não é preciso, querido, fazer pergunta tão evidente. Porque, na verdade, nada tenho para te dizer; entretanto, tuas mãos queridas receberão este papel”.
– Isso é Goethe… Ela diz, orgulhosa.
– E isto é você: “Nada tenho pra te dizer, a não ser que esse nada é pra você que eu digo. Tenho tantas saudades de falar com você pelo menos pelo telefone… I love you…”.
Ele vira o cartão:
– E esta é a Vênus de Boticelli…
Ela avança sobre ele, querendo pegar o cartão.
– Calma…
– Você ainda sente raiva.
Ele se limita a beber junto com o uísque as palavras que nem saberia dizer, como beberia qualquer bebida que lhe preenchesse o tempo que parece não passar… E se serve de mais bebida.
– O que você está escrevendo?
– Uma adaptação para a TV das fantasias de um idiota que se imaginava genial… Alguém que não se contenta com a felicidade de estar vivo…
– Você faz questão de parecer amargo…
– Quando você vai embora?
– Amanhã… Isso é ridículo, sabia?
– Amanhã?
– É, amanhã. Vou para Tóquio…
– Tóquio…
– A gente não tem muito tempo…
Ela encosta-se na escrivaninha… Ele olha suas pernas que se oferecem.
(Eu sempre tive a fantasia de tocar tua boceta com as teclas da máquina… As teclas não estalando mais no papel, mas lambendo a rubra umidade dos teus lábios no mesmo ritmo descompassado das noites mais inspiradas: ora veloz, ora lento – às vezes unhas de mandarim, às vezes pétalas de jasmim… Anchieta eu seria escrevendo com os dedos nas areias que sois e seria o mar a minha língua te lambendo os versos depois… E você seria a solidão das praias e o silêncio das fotos….
Mas, se de fato a fantasia é imprimir em tuas carnes, tatuar em teu útero um poema, é preciso confessar que, se tentasse, as teclas se amontoariam uma a uma, acavalando-se – amortecidas pela maciez úmida dos lábios – e o sonho se desfaria nos limites que o mundo impõe à existência: a tecla é feita para rebater contra a superfície dura do cilindro em que o papel se enrola e voltar na mesma velocidade para o espaço que lhe cabe – não para estancar em pleno vôo, esguia estátua de prata admirada com a suavidade que lhe suga, em súbita carícia, toda a seiva de ser metal.
E as teclas que a seguissem – pois todas convergem para o mesmo ponto e devem à velocidade com que se alternam a eficiência de seu trabalho – as outras imediatamente iriam se amontoando, numa reação em cadeia que encrenca a engrenagem toda – e o que era ritmo se esboroa em máquina emperrada…
E seria então, leitor, que o anão invadiria a cena.
O anão é, por definição, uma figura macrocéfala, de tronco e membros curtos. Mas é também uma expressão: “Ah, não!”, que, quando eu era pequeno, era rebatida com a resposta: “Ah, não! é um homem pequeno.” E assim o anão associou-se em minha mente à negação e à recusa. A recusa: Não creio. Não quero. Poderíamos falar horas sobre a recusa e seus efeitos: a inveja, o ciúmes, o rancor, a autopiedade. Mas fiquemos com a figura do anão.)
O anão entra em cena. elE veste um pijama igual ao d’Ele e se esgueira pelo palco tentando ver o que faz o casal.
Ela está sentada sobre a mesa onde antes estava a máquina de escrever; e ele fez muito bem em tornar a fantasia tácita metáfora e entregar sua boca à outra boca que se abre à sua frente, deixando viajar a língua em volúpias que são também poemas, coreografias de colibri beijando flor…
E o anão, o que pensa? Para sabê-lo é preciso esperar que ele sacie seu olhar infamante, que não descobre, mas destrói – seu olhar de não. Enfim, ele conclui, dirigindo-se à platéia:
– Todas as mulheres são putas. O que Ela quer é pica. Basta uma pica grande e dura, para fazer revirar esses olhos feito dois peixinhos aflitos e famintos…
O Outro entra em cena, de repente e diz:
– E por que não, “ah, não”? O nome disso é tesão. Todas as mulheres são putas até serem rainhas para alguém… E ainda bem que há putas enquanto a rainha não vem…
O anão, enxotado pelo Outro, sai correndo de cena, balançando seu pauzão enorme e gritando que todas as mulheres são putas, só a mãe dele é que não.
E os dois?
Ah, ela já gozara e agora jaz desfalecida sobre os ombros dele sem peso algum: é como se fossem um – flor de carne que ao sol repousa.
– Sabia que eu já sei quase falar japonês?
– Sabia que eu escrevi uns hai-kais?
– Sabia que foder em japonês é fúcsia?
– Eu pensava que fosse fuque-fuque…
E aí, os dois saltam finalmente para a cama e o diálogo desanda para esse humor do amor que perdoa tudo, entregue ao sim que abraça a recusa como se fosse irmã e amansa seu rancor, um sim que não é cegueira, mas compaixão, pois não há amor que não seja também esquecimento.
E eles seguem falando essas bobagens que se dizem Os Amantes – pois também não há amor que não seja um pouco rude, um pouco tolo… Até que tomam a cena os outros sons do amor e suas poucas falas, que se escritas parecem obscenas, mas se sussurradas soam como carícias ao ouvido.
São obscenas as falas e são ingênuas e delas não se fará registro.
Mas, esgotados os sons e o silêncio satisfeito que se segue, a conversa se reinicia mansa e confessa…
– Eu escrevi pra você uma história…
– ?
– “O Escafandrista e a Bailarina”…
– !
– … :
– Lê pra mim…
Ele levanta-se, pega uns papéis e vai sentar-se na bergère. Ela o segue e se ajeita entre as pernas dele.
(E eu quero essa cena bem fixada em tua memória, leitor, espectador involuntário, amigo – se, afinal, já chegaste até aqui. Eu quero bem gravado em tuas retinas essa imagem, da Escuta debruçada sobre a Fala, imagem que resume o que é o Homem.)
Então, uma luz se acende e se ouvem uns poucos e espaçados passos, pesados e lentos…
Um escafandrista (feito esses de aquário) entra no palco. E você talvez ouça o som de borbulhas que marca sua respiração no escuro silêncio do fundo do mar. O Escafandrista dirá com gravidade retumbante e certa pompa:
– Venho de um profundo mergulho na alma humana…
E lá no fundo, tudo que encontrei foi lama.
Lama e escuridão.
Há navios que são como catedrais imensas.
E tesouros.
Riquíssimos tesouros.
Mas irresgatáveis.
Perdidos para sempre na lama e na escuridão…
Ninguém nunca antes lá estivera – tão fundo – tão baixo…
Salvou-me esta couraça, falso corpo feito para não sentir,
Que agora se confunde com a minha carne…
Ouve-se uma valsa.
Entra no palco a Bailarina (feito essas de caixinha de música).
Ela diz:
– Não fique triste, escafandrista.
A alma é lama quando o corpo é porco.
Mas sensual é também o porco em sua entrega à lama.
Símbolo máximo do apaziguamento.
O êxtase da exaustão,
Vazio exato onde nada falta,
Se prestares atenção.
Vem, despe essa couraça,
E dança a tua dança.
Só alcança a luz
Aquele que fracassa,
E deixa de ser de si
Caçador e caça.
O Escafandrista responde:
– Tenho os pés de chumbo da couraça que carrego…
A Bailarina retruca:
– Dança, para que ela se desfaça.
O corpo para a alma
Deve sê-la, e não cela.
Só quando a alma ganha corpo,
O corpo ganha calma.
O Escafandrista insiste:
– Eu não sei dançar…
Me acostumei à lama, alma encantada de si mesma.
E sentiria falta da indiferença que a couraça me confere.
Tua luz me fere, Bailarina, e quase chega a ser amor
A inveja que sinto da leveza dos teus passos.
Paralisado nesse impasse que lhe pesa tanto quanto a couraça que carrega, o Escafandrista talvez medite sobre o peso das coisas, calculando seu próximo passo – e assim ficará, imóvel, até que a cena se esfume como se afundasse…
– Eu me sinto comovida… Você escreve no papel o que eu leio nas nuvens que o vento esculpe no céu…
– E de vez em quando, as tuas orelhas ficam quentes de mim pensando em você..
Enfim, leitor, o que ela intui e ele custa a crer é que o amor se tece na ausência: o amor é o que fazemos de sua falta. Por isso, talvez valesse que o Outro sussurrasse ao ouvido dele agora:
“Vai, fala agora dessa dor que não se sabe dizer. Vai, faz dançar as Fantasias numa coreografia de mostrar o que palavras não podem contar…”.
E então, como um possesso, Ele se dirigiria às sombras e gritaria:
– “Falai, Fantasias. Falai!
De quem sois?
De mim?
De nós dois?
De nenhum de nós?
Como, enfim, o ciúme se faz?
E o prazer – de onde se extrai?
Afinal, quem quer o quê e o que é querer?
Falai, Fantasias, falai: o que não sabe dizer-se quer mostrar-se.”
Mas. não. Não será assim. Os dois seguem juntos na cama, abraçados e em silêncio.
As luzes se apagam. Escuridão e silêncio.
Música.
Acende-se uma luz que ilumina Ele menino brincando no chão com um carrinho. Do alto das escadas entrelaçadas, descem um Homem e uma Mulher. Ela se aproxima do Menino, afaga sua cabeça, e põe-se a trabalhar num tear.
O homem, também de pijama, senta-se na bergère e abre um jornal.
A mulher tece, o homem lê, o menino brinca.
Mas imagine, leitor-amigo, que a música vá muito lentamente degenerando em atonalidade e dissonância. Os movimentos da mulher vão se tornando vãos, desconexos, dolorosos.
Giram as Fantasias pelo palco. Então a mulher leva as mãos à cabeça e cai. As fantasias a tomam nos braços e jogam com ela como se boneco fosse, ante o olhar atônito do menino.
Finalmente, ela é levada numa maca por homens mascarados e vestidos de açougueiros. O menino cobre os olhos para não ver. Para chorar. Para não chorar.
Aparentemente, o homem não viu a cena. Ele continua lendo por detrás do jornal. O menino gesticula uma súplica de cinema mudo, mas o homem permanece imóvel. O menino se atira sobre o jornal. Mas, por detrás do jornal não há ninguém! Ninguém: apenas braços e pernas no ar suspensos. As luzes se apagam num corte bruto.
Escuridão.
Longa escuridão que quer ser o símbolo da solidão mais intensa.
As luzes se acendem e eis de novo o menino brincando sozinho no centro do palco.
A Mãe desponta do fundo como uma aparição. A primeira reação é fugir. Mas ele corre, corre, corre sem sair do lugar. A mãe retoma seu tear. E o pai continua lá, lendo o jornal de ontem.
Tudo igual como era antes.
Ele engatinha até a Mãe e toma o novelo do tear e o leva para cama, e brinca com ele como um gatinho faria até adormecer. Na semi-escuridão do palco, entram as Fantasias que, numa dança frenética mas silenciosa, tomam o novelo e vão envolvendo a cama como se quisessem fazer da cama um casulo. Quando o novelo se acaba, as Fantasias amarram a ponta do ponta final numa Âncora e a lançam na cama, onde ela parece afundar.
A luz vai caindo até à escuridão completa. Longo silêncio.
Então, de repente, um globo terrestre emerge da cama como um balão: O Mundo! E na cama, Ele não é mais Menino, mas um Homem.
Ele observa extasiado O Mundo que paira delicadamente sobre ele sem talvez perceber que ele está preso ao fio como antes estivera a Âncora. Ele enfim ergue-se na cama, toma nas mãos O Mundo e brinca com ele numa espécie de dança cuja graça é limitada pela pouca extensão do fio. Uma dança mais de Pequeno Tirano do que de Grande Ditador. Mesmo assim, ele parece feliz no desengonço de sua dança porque pensa ser dele O Mundo.
Até que de repente – o despertador toca.
Ele surpreso, agarra-se a O Mundo que pensa ser seu e tenta protegê-lo, numa coreografia mais e mais desesperada, porque quanto mais o aperta contra o corpo, mais O Mundo diminui até que O Mundo se reduz a uma – bola de ferro!
Ele então resignado como coloca a bola de ferro no chão e começa a caminhar penosamente sem sair do lugar. Lentamente, as Fantasias vão chegando e se agrupando na frente dele a alguma distância e observam sua penosa tentativa de caminhar. Ele estende as mãos para elas como quem pede ajuda, mas elas permanecem quietas, indiferentes, mas atentas, confabulando entre si.
Então de repente todas elas estendem as mãos em direção a ele, como se fossem um imã o atraindo para elas, até que Ele finalmente se solta e cai nos braços das Fantasias.
Carnaval.
“Livre!”, ele grita. “Eu estou livre!”. E, imitando Édipo ao atravessar triunfante os portais de Tebas acreditando ter derrotado seu Destino, Ele dá uma banana para sua cama-casulo e a bola de ferro que se tornou O Mundo, e cai na folia, levado pelas Fantasias que o cercam e amparam. Ele vai: louco, embriagado, fabuloso e melancólico, intenso e notável – demais até. Muito demais de mais, ainda que outras vezes, demais de menos – fora outras tantas, de pouco quase mesquinho. Ele vai, no eterno Carnaval que é sua partida interminável.
E sua dança carnavalesca vai aos poucos se tornando uma mímica de menino soltando pipa – com o fio invisível do que já fora novelo, Mundo, bola de ferro. As Fantasias parecem se encantar com os movimentos dessa pipa imaginária no céu, mas as poucos vão perdendo o interesse, até que Ele fica sozinho no palco e a música vai se tornando um jazz cada vez mais cool, introspectivo, melancólico, enquanto a luz vai fechando lentamente até à escuridão.
Silêncio e escuridão.
Ele continua dormindo.
A luz do projetor se acende.
Ela desce nua lá da tela, e deita-se ao lado dele, velando o seu sono.
Ele acorda.
– Eu tenho de ir… Ele diz.
– Ainda é cedo…
– Está amanhecendo…
– Não…É que a esta hora mal se sabe se é noite ou dia o que vem.
– Fica… Quem sabe o sol não se alucina e salta de volta para a China?
– Não… Até o sol tem sua sina…
– Mas podemos iludir o sol com um movimento de cortina…
– Bobo… Se você quer, eu fico…
– Não. Vai… O que tem força fica e nem o tempo elimina.
– Eu vou. Tenho de ir… Não triste, mas calma porque é outra a luz que agora nos ilumina…
E assim acabaria a história: numa despedida sem dor.
Pois, pela primeira vez, o Escafandrista soubera descer e enfrentar a dor incomunicável que jaz lá no fundo, guardiã mesquinha de nossos tesouros.
E, desta vez, a venceu. E sua única arma foi o afeto – de seu corpo e de seu silêncio.
E ao subir de volta, já não era mais um fantasma reclamando luto, nem um menino chorando a perda, mas um homem em face da sua solidão.
(No entanto, ainda havia muito a percorrer…)
Ele vai subindo a rampa em direção à tela e de vez em quando se volta para acenar para Ela – e para a platéia, que talvez lhe responda com acenos também – até chegar ao topo e atravessar a tela – não sem antes acenar uma última vez…
A luz cai quase ao ponto da escuridão,enquanto você vai saindo do teatro,
e quem sabe se possa ouvir muito ao longe
o solo de Dizzie Guillespie tocando Stormy Weather
no dia 22 de fevereiro de 1953, em Paris?