Em Terra de Cego

“Neste mundo, os loucos conduzem os cegos” Shakespeare, Rei Lear.


“Tirésias!”

O Rei está cagando.
O Rei é cego do olho esquerdo e usa uma venda de pirata para cobrir o olho cego.
À esquerda do Rei, do seu lado cego, está o Quatro-Olhos. Ele usa óculos de lentes garrafais e se posta sempre do mesmo lado do Rei (de modo a não ser visto por ele) e a uma distância em que possa lhe sussurrar coisas que só o rei possa ouvir (por isso o Rei imagina que o Quatro-olhos seja a voz de Deus que só ele ouve).

“Tirésias!”

Entra Tirésias, o cego imortal das tragédias gregas. Tirésias veste o pijama listrado de E/Ou. Tirésias é e não é Tirésias. Tirésias é E/Ou.

“Quantas vezes eu já disse que eu só quero me limpar com poesia?! E só edições de luxo! O papel é mais fino, a tinta não mancha meu rabo… E a gente ainda se entretém com versos enigmáticos enquanto caga!”

A privada real está cercada de pilhas de livros. O cenário inteiro é constituído de livros: mesas de livros, cadeiras de livros, divãs de livros… Há, claro, objetos que denotam o luxo real e muitas almofadas que sugerem vagamente um ambiente oriental de cinema mudo, mas o quem impera é a desordem, o desleixo.

“Pronto! Dever cumprido!”.

O Rei levanta-se baixando a túnica e ajeitando o manto e a coroa. Apoiado em seu cetro, ele começa a caminhar pelo cenário numa pose que se pretende aristocrática.

“Num Reino movido à merda todos têm o dever cívico de manter os intestinos limpos e em pleno funcionamento! TO-DOS! Em se tratando da merda, todos são iguais perante a lei em nosso Reino!”

“Tirésias! mande entrar nossos economistas!”