As Sereias de Copacabana

INT. – SUPERMERCADO – NOITE

FADE IN

LUIS GUSTAVO, 35 anos, roteirista de tv, surfista, solteiro,
avança de óculos escuros pelos corredores do supermercado
quase vazio. Ele pára, busca uma música no Ipod. Escolhe
Cheek to Cheek, com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, e
enquanto caminha começa a dançar com o carrinho de compras.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM intercalada com a dança:

1. Lula coloca maçãs no carrinho.

2. Lula coloca suco.

3. Lula coloca pão.

4. Lula troca uma ricota que já estava no carrinho por um
roquefort.

5. Lula pega uma salada pronta.

MARINA, 25 anos, estudante de oceanografia e também surfista
e bodyborder, repara, sem ser vista, na coreografia de Lula.
Ri.

Lula no caixa. Marina chega no outro caixa atrás dele.Lula
sai comendo uma maçã.



EXT. – RUA – NOITE

Na saída do supermercado, Marina da fila vê Lula brincar com
BIKU, a cadela akita de Marina que está amarrada do lado de
fora. Lula dá um pedaço de maçã para Biku. Marina ri e
balança a cabeça. Lula segue para casa.



INT. – CASA DE LULA – NOITE

Lula entrando em casa. Larga as coisas sobre a mesa da ampla
sala onde há, além dessa mesa de jantar, estantes com muitos
livros, discos, cds, tapetes, quadros, dois sofás e três
poltronas, uma escrivaninha, um balcão com bancos altos, uma
geladeira antiga pintada em motivos psicodéliocs e um piano.

Ele aperta a secretária, entra um recado de BEATRIZ. O
relógio marca 12:08.

Enquanto ouve, Lula anda pela sala. Há retratos dele e de
Beatriz juntos, só dela, só dele, dele com os pais, dvds de
Almodóvar, livros de arte sobre Barcelona, Dalí, Picasso,
Madri, Miró, Buñuel.

BEATRIZ (O.S.)
Oi, Guga…Saudade de você… Aqui
muito trabalho, mas hoje foi um dia
ótimo. O Almodóvar é o máximo e é o
que eu já te disse,estou conhecendo
uma outra Madri, bem diferente
daquela que a gente viu ano
passado… Quero vir de novo com
você… Tentei te dar um beijinho o
dia todo, mas seu celular estava
fora de área, aí eu liguei pra cá
só pra deixar recado… Queria te
pegar assim, chegando em casa e me
ouvindo… Andando de um lado para
o outro…  Aqui é meia-noite
agora… Quando você chegar eu já
vou estar dormindo… Hoje é a
primeira vez aqui que me sinto
sozinha de verdade… Finalmente!
Assim eu posso sentir saudade de
você direito… Agora é que dá pra
ver quanto… Nessas horas é que eu
vejo o quanto você é importante pra
mim, sabia?… Vou contar para você
um segredo… Curioso, é? Posso
imaginar… Parou ou continua
andando? O segredo que eu vou te
contar é: tenho uma surpresa pra
você… (Beatriz ri) É, meu lindo,
vesti de segredo a surpresa que vou
te fazer… Sou ou não sou a melhor
figurinista do mundo? (Beatriz ri)
Que besta! Meu amor, vou tomar um
banho e deitar… A gente se fala
amanhã… Mil beijos, Guguinho!
(SONS de beijo) Te amo! Quero que
esse nosso quadro ocupe toda a
parede!

Lula senta ao piano. Do piano ele pode ver na parede ao lado
do piano um quadro horizontal com três fotos deles, no mesmo
lugar, mais ou menos com a mesma pose, mas tiradas em épocas
diferentes. Lula vai dedilhando no piano e, nota por nota,
vai construindo sua versão de Garota de Ipanema.

Lula olha uma foto de cada vez enquanto vai tocando e para
cada foto lembra de uma frase de Beatriz.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM

Foto 1:

BEATRIZ (V.O.)
Eu sei que eu posso mais! Estar
aqui já é um luxo mas eu não vou
ser assistente de figurino a vida
toda…

Foto 2:

BEATRIZ (V.O.)
… mas eu não quero só TV! Eu
quero cinema, eu quero teatro, eu
quero escola de samba! Eu quero
tudo!

Foto 3:

BEATRIZ (V.O.)
Meu amor, Al-mo-dó-var! Você
acredita? Almodóvar me convidou
para fazer o figurino do seu
próximo filme…

Lula toca Garota de Ipanema ao piano. Da janela dá para ver
um pedaço da praia.


FUSÃO PARA:

INT. – CASA DE LULA – MANHã

O piano vazio, sol iluminando a sala. Da janela dá para ver
a praia.

CORTA PARA:

EXT. – PRAIA – MANHã

Lula chega na praia com sua prancha de surf. Da beira da
água observa o mar. De repente, Biku vem saudá-lo. Marina
está um pouco mais atrás, de pé, com a prancha de bobyboard
sobre a canga na areia.

MARINA
Ela gostou de você.



LULA
Você sabe que isso, vindo de um
Akita, é um elogio e tanto.

MARINA
Sei, sim.

LULA
E como ela se chama?

MARINA
Biku. Quer dizer monge em japonês.

LULA
Bom, agora que a Biku já me
conhece, deixe eu me apresentar a
você. Eu sou o Luis Gustavo, mas
muita gente me chama de Lula. E há
até quem me chame de Guga…

Lula estende a mão para Marina e ela a aperta.

MARINA
Muito prazer… Lula? Prefiro
Guga.. . Eu sou Marina.

LULA
E você mora por aqui, Marina?

MARINA
Ainda não tem um mês…

LULA
Ah, então é por isso… Esta é a
primeira vez que eu vejo você.

MARINA
Eu tenho vindo a praia de manhã
sempre que posso.

LULA
Eu tento, mas esta semana foi
complicada. Eu trabalho em
televisão e começo de ano pra mim é
sempre enrolado…

MARINA
O que você faz?

LULA
Sou roteirista de “Copacabana”.

MARINA
Ah! Que legal! Eu assisto às vezes.
Gosto muito. Eu faço pós em
Biologia Marinha.

LULA
Que engraçado… Eu acredito que
nome é destino.

MARINA
É, no meu caso, talvez seja mesmo.
Bom, eu vou pegar umas ondas.

LULA
Eu vou entrar também. Biku fica
sozinha?

MARINA
Fica. Ela fica quietinha na canga
até eu voltar.

Lula e Marina mergulham no mar.
SEQUÊNCIA DE MONTAGEM

1.Marina desce numa onda.

2. Lula desce numa onda.

3. Marina rema de volta.

4. Lula à espera de uma onda.

5. Marina desce em outra onda.

6. Lula desce em outra onda.

7. Lula sai do mar e finca sua prancha bem próximo de Biku,
atenta e impassível. Pouco depois ela se põe subitamente de
pé e caminha para beirada.

8. Marina está saindo do mar.

MARINA
Está ótima!

LULA
É, mas eu tenho de ir. Vou almoçar
na casa da minha mãe.

MARINA
Mas hoje é sábado!

LULA
Pois é… Minha família nunca foi
muito convencional.

MARINA
Ao contrário da minha…

LULA
Mas depois eu estarei livre e vou
convidar você para assistir uma
coisa que você nunca viu.

MARINA
Como é que você sabe?

LULA
Quer apostar? Se não for a primeira
vez, você diz não.

MARINA
Fechado!

LULA
Vamos assistir à lua cheia nascer
na Praia do Diabo.

MARINA
É, você ganhou…

LULA
E você também… É lindo. Diz seu
celular.



INT. – CASA DE MARIA AUGUSTA – DIA

Lula está na magnífica cobertura de sua mãe MARIA AUGUSTA
MAGALHÃES DANTAS, na Avenida Atlântica, Posto Seis. Estão os
dois na mesa de almoço no terraço de frente para o mar.

LULA
Você não convidou o Cláudio?

MARIA AUGUSTA
Você sabe como é o Cláudio, não é?
Ele prefere beber a comer. Mas
talvez apareça por aqui daqui a
pouco, se tudo correr bem… E
Beatriz, como está indo na Espanha?

LULA
Ah, está superfeliz. A gente tem se
falado quase todos os dias, mas
você sabe como é a Beatriz quando
pega um trabalho…

MARIA AUGUSTA
Ainda mais agora que ela está
começando uma carreira
internacional… Eu sempre
acreditei nela. Ela tem talento e
obstinação. Isso leva as pessoas
longe. Será que agora vocês casam?

LULA
Espero que não!

MARIA AUGUSTA
Que horror, meu filho! Eu quero
netos! Netos!

LULA
Mas para isso eu não preciso casar!

MARIA AUGUSTA
Ah! Crianças precisam de uma
família. Uma família estável, quero
dizer.

LULA
Eu duvido muito que Beatriz esteja
pensando em filhos agora.

MARIA AUGUSTA
Será? Talvez seja exatamente o
contrário…

LULA
Humm… Vocês duas andam
conspirando?

MARIA AUGUSTA
Ela é minha única esperança de
netos…

LULA
Você não tem jeito mesmo, dona
Maria Augusta Magalhães Dantas!

CLáUDIO (O.S.)
Eu venho repetindo isso há mais de
30 anos, meu filho!

CLÁUDIO VIEIRA entra no terraço, mas não chega a se sentar à
mesa.Ele é alto, muito queimando de sol, magro e elegante,
calça e camisa brancas, havaianas e óculos escuros.

LULA
Cláudio! Ainda bem que você chegou.
Dona Guta está querendo me casar a
qualquer custo!

CLÁUDIO
As mulheres não pensam em outra
coisa, filho!

MARIA AUGUSTA
Eu quero netos. O casamento é só
uma consequência mais ou menos
lógica, mas negociável…

LULA
Que ótimo! Então, Cláudio, você tem
procuração para negociar em meu
nome o melhor acordo possível com
essa outra obstinada e talentosa
mulher. Eu preciso dar um
telefonema.

CLÁUDIO
Pode deixar! Mas não se preocupe,
Guta. Eu também quero um…
afilhado-neto ou seja lá que nome a
gente dê!

LULA
Meu Deus! Até você? Isso é um
complô. Mas vamos ver o que eu
posso fazer por vocês.

Rindo, Lula pega o celular, se levanta e sai.



EXT. – PRAIA – NOITE

Lula, Marina e Biku estão sentados na praia do Diabo em
frente ao mar à espera da lua. Lula consulta o relógio.

LULA
Faltam exatamente três minutos para
a lua nascer…

MARINA
E depois dizem que as mulheres não
são pontuais.

LULA
É, deve ser porque a lua não
precisa se vestir para sair.

MARINA
É uma boa explicação… Então eu
devo ter alguma coisa de lunar…

LULA
Por que você também é pontual?

MARINA
Não, porque eu também gosto de
andar nua. Ou com o mínimo de roupa
possível. Aliás, eu nem ligo muito
para roupa…. Olha! A lua!

No horizonte, a lua começou a despontar no meio do mar,
imensa. Lula e Marina observam por alguns instantes. Então
de repente Lula começa a assoviar a melodia de Blue Moon
para Marina.

MARINA
Que bonita música…

LULA
Fica ainda mais bonita no piano…

MARINA
Você toca piano?

LULA
Toco… Meu pai foi um grande
compositor e minha mãe tem ouvido
pleno… A música sempre fez parte
da minha vida e desde pequeno eu
estudei piano…

MARINA
E dançar você gosta?

LULA
Adoro! E também adoro cinema!

MARINA
Entao que tal “play it again” no
piano da sua casa? Aposto que você
tem um piano em casa…

LULA
Tenho… E também tenho uma garrafa
de champanhe na geladeira…

MARINA
É, Louie, acho que isto é começo de
uma bela amizade…


Lula e Marina caminham já no calçadão do Arpoador em meio à
ligeira bruma que vem do mar.



INT. – ELEVADOR DE SERVIÇOS DE LULA – NOITE

Lula, Marina e Biku no elevador de serviços. Lula afaga
Biku.

LULA
Desculpe, Biku. Você certamente é
mais nobre que alguns dos meus
vizinhos, mas o combinado aqui é
que os cães devem subir pelos
fundos.

MARINA
Não se preocupe, Louie. Ela já está
acostumada.

Elevador chega no andar de Lula.

CORREDOR DE SERVIÇOS DO ANDAR DE LULA.

Lula abre a porta do seu apartamento.



INT. – CASA DE LULA – NOITE

Lula, Marina e Biku entram na sala do apartamento de Lula.

MARINA
Bonito seu apartamento… Você tem
bom gosto, Louie.

Marina vai se aproximando do piano devagar, olhando os
objetos no caminho. Lula joga com as luzes para manter a
sala pouco iluminada.

MARINA
E então, Louie, o que é mesmo que
você vai tocar para mim?

Lula tenta conduzir Marina de tal modo que ela não veja a
sequência de fotos dele e Beatriz em frente ao piano. Ele a
coloca de costas para elas ao lado do piano e se senta.

LULA
De Rogers and Hart, Blue Moon…

Lula toca Blue Moon. Marina assiste atenta.

LULA
Now, I am no longer alone, without
a dream in my heart, without a love
on my own… Blue moon…

Lula improvisa sobre o tema de Blue Moon. Marina joga a
cabeça para trás e ao reparar na sequência de fotografias de
Lula com Beatriz sempre no mesmo lugar vai se virando para
vê-las direito até ficar de costas para Lula. Lula passa de
Blue Moon para os primeiros acordes de B Minor Waltz(for
Ellaine). Marina se volta de novo. Lula volta a tocar Blue
Moon.

MARINA
Blue Moon é a segunda lua cheia de
um mês…

LULA
Eu sei…Inesperada…

MARINA
Mais incomum que inesperada. Você
sabe fazer um martini, Louie?

LULA
Champanhe combina mais com você…

MARINA
Na verdade, eu não bebo, Louie. E
já é hora de ir para casa.

LULA
Eu levo você.

MARINA
Tudo bem. Assim você conhece a
minha casa também.



INT.- CASA DE MARINA – NOITE

Lula e Marina estão na sala do apartamento dela.

MARINA
Quando eu vim para o Rio, fui morar
com uma amiga no Leblon. Mas agora,
ela e o namorado resolveram morar
juntos e eu preferi vir para cá…
O apartamento é da família, mas tem
passado quase todo o tempo
fechado… Na verdade, pertence a
minha avó…

LULA
Aquela moça do quadro?

Lula aponta para um quadro grande na parede.

MARINA
Muito bem, Louie! Como você
adivinhou?

LULA
Ela parece com você…

MARINA
É verdade… É um Di…

LULA
Que extravagância! Manter um Di num
apartamento fechado!

MARINA
É, hoje parece mesmo… Mas esse
apartamento já teve seus
momentos…

LULA
Vai ver sua avó e minha mãe até se
conheceram… Bom, pelo menos meu
pai…

MARINA
Quem é seu pai?

LULA
Meu pai já morreu… Mas você
certamente o conhece: Beto Lins.

MARINA
Uau! Você é filho do Beto Lins,
Louie? Muito prazer de novo! E é
mesmo bem capaz de minha avó ter
conhecido seu pai… Sabe, ela
gosta de dizer que teve seu tempo
de Hilda Hilst antes de se tornar
uma jovem matriarca da tradicional
família mineira.

LULA
Interessante sua avó…

MARINA
Avó e madrinha… Foi ela quem
escolheu meu nome…

LULA
Di, Caymmi…

MARINA
É, deve ter alguma coisa a ver com
esse tempo mítico dela no Rio.
Também devo a ela, entre outras
coisas, esse meu gosto por
cinema… Aliás, Louie, você sabe
lidar com eletrônicos?

LULA
Claro! O que você quer?

Marina aponta para umas caixas num canto da sala.

MARINA
Tudo! Comprei tudo novo: tv, dvd,
som… O que tinha aqui era muito
antigo. Doei…

Lula começa a abrir as caixas.

LULA
Agora entendi porque você me
convidou para conhecer sua casa…

MARINA
Que maldade, Louie!



INT. – SALA DE MARINA – NOITE

Lula e Marina assistem os momentos finais de O Feitiço do
Tempo.

MARINA
Eu adoro esse filme… Puxa, e você
ainda não tinha visto… Me deve
essa, Louie!

LULA
É verdade…

MARINA
Empatamos então.

LULA
Nada disso! Eu dei a você a lua no
Arpoador e Blue Moon…

MARINA
Tem razão… Como eu vou fazer para
empatar esse jogo, Louie?

LULA
Você não espera que eu diga, não é?

MARINA
Adoraria…

LULA
Mas já está um pouco tarde.

MARINA
Há quanto tempo você não dorme fora
de casa, Louie?



INT. – QUARTO DE MARINA – DIA

Marina dorme em sua cama de casal. Ela está sozinha na cama.
SOM de Blue Moon assoviado. Marina se espreguiça abrindo os
olhos.

MARINA
Louie…

LULA
Peguei uma maçã… Quer?

MARINA
O truque da maçã pertence às
mulheres… Me dá um pedaço…

Lula senta-se na cama e dá um pedaço da maçã na boca de
Marina.

LULA
Vamos pra praia?

MARINA
Ainda é cedo, Adão… Vamos
aproveitar um pouco mais, antes que
a gente descubra que é pecado.

Marina puxa Lula para ela, os dois rolam pela cama.



EXT.- PRAIA – DIA

Marina está acomodada em sua canga enquanto Lula está
refestelado direto na areia. Biku está sentada na areia ao
lado de Marina.

MARINA
O que você vai fazer hoje à noite?



LULA
Hoje eu vou tocar no Rio Jazz Club.
Eu e o Claudio sempre tocamos
juntos. Pura diversão…

MARINA
Claudio Moura?

LULA
Isso! Ele e meu pai fizeram juntos
bem uma dúzia de clássicos da
MPB… Ele é uma figura…

MARINA
Posso ir ver você tocar, Louie?

LULA
Pode…

MARINA
Não se preocupe… Eu sei onde
acaba o Paraíso.

LULA
Marina, então deixa eu te dizer uma
coisa… Você é uma menina linda,
inteligente, divertida. Mas eu
tenho namorada. Ela se chama
Beatriz, está na Espanha a trabalho
e volta no fim do mês…

MARINA
Louie…

LULA
Espera, deixa eu acabar. Nós
estamos juntos há um tempão. Nossa
relação é aberta, mas é forte. O
foco da vida dela é o trabalho e
eu…

MARINA
Sim, você… Qual o seu foco,
Louie?

LULA
Eu… Eu simplesmente vivo, Marina.

MARINA
Eu sei, Louie.

LULA
Sabe?

MARINA
Eu sou bióloga, Louie. Sei
reconhecer as espécies. E você é um
animal selvagem. Um doce animal
selvagem vivendo em cativeiro.

LULA
O Rio é minha reserva…

MARINA
Isso… E eu pertenço a outro
mundo. Um mundo habitado por
tartarugas, golfinhos, baleias e
onde quase não há gente. E quando
há é sempre olhada com
desconfiança.

LULA
Você vai me ver tocar hoje?

MARINA
Posso levar minha amiga e o
namorado?

LULA
Claro!

MARINA
E não se preocupe… O meu trabalho
é preservar o meio ambiente.

LULA
(imitando um animal
selvagem)Rrrrrrr..



INT. – RIO JAZZ CLUB – NOITE

Lula, Claudio e o resto do quarteto executam os solos finais
de Sometime Ago. SOM de aplausos.Lula levanta-se do piano e
vai ao microfone.

LULA
Daqui a pouco a gente volta…

Lula desce do palco e se dirige à mesa onde estão Marina e
um casal. Lula se junta a eles.

LULA
E aí, gostaram?

MARINA
Para uma geração de roqueiros, até
que vocês não se saíram mal.

ZECA E ANA riem, discordando.

LULA
Qualquer dia eu mostro a você meu
lado Jerry Lee Lewis… A gente
ainda vai tocar mais uma vez. Vocês
vão ficar?

ANA
É uma pena, mas a gente tem de
ir… Amanhã é segunda…

MARINA
Eu também acordo cedo, Louie… Se
despede do Cláudio por mim…

LULA
OK. Eu ligo pra você depois.

MARINA
Ou eu pra você.

Todos se levantam e se despedem. Marina, Ana e Zeca saem e
Lula senta-se de novo. Sinaliza para o garçom que lhe traga
algo. Claudio chega e senta.

CLÁUDIO
Já foram?

LULA
Já… Marina deixou um beijo pra
você.

CLÁUDIO
Bonita moça… Cuidado, filho. A
beleza é um abismo.

LULA
Eu sei…

CLÁUDIO
Eu sei que você sabe. Mas a gente
sempre esquece. Por isso eu estou
lembrando você. Quando Beatriz
volta?

LULA
No fim do mês.

CLÁUDIO
Perigo! Perigo!

LULA
Cala boca, lata velha!

Os dois riem e se abraçam.



EXT. PRAIA – DIA

Lula na praia com um amigo, MARCOS.

MARCOS
Ih, rapaz… Olha lá. Não é a
Claudinha? É ela mesma… Você já
não saiu com ela uma vez? Cara, ela
tem umas amigas… Ô, Lula! Acena
pra ela… Que mulherão! Ela tá
olhando pra gente.

Marcos acena para CLAUDIA com entusiasmo. Lula apenas sorri.

MARCOS
Qual é, Lula? Vai ficar nessa? Pô,
a Bia não está viajando? Hora de
aproveitar, meu irmão, como você
sempre fez. E eu vou na tua cola,
como sempre.Vai lá, pires de
leite…

Lula apenas ri.

MARCOS
O que deu em você?

Marcos faz que está tirando a febre de Lula, colocando a mão
na testa dele.

MARCOS
Será que é dengue? Desidratação?

Biku aparece e vem saudar Lula, que se abaixa para brincar
com ela.

LULA
Oi, Biku!

Lula se levanta e dá de cara com Marina.

LULA
Menina, você não morre tão cedo!
Estava pensando em você!

MARINA
E eu achando que minhas orelhas
estavam quentes por causa do sol…

LULA
Esse é o Marcos…

MARINA
Oi, Marcos… Eu sou a Marina.

MARCOS
Oi, Marina! Então era em você que
esse cara estava pensando enquanto
eu falava com ele… Entendi
tudo… Agora é que não vai mesmo
adiantar nada falar com ele. Então
vou aproveitar para dar um
mergulho…

LULA
E aí? Liguei para você ontem.

MARINA
Eu vi! Eu esqueci o celular em
casa. E cheguei tarde…

LULA
Tudo bem. E hoje, o que vai fazer?

MARINA
Não sei ainda…

LULA
Cinema às oito?

MARINA
Qual filme?

LULA
Não sei.

MARINA
Esse filme eu já vi.

LULA
Engraçadinha.

MARINA
Esse também… Que tal “Qualquer
coisa com você”?

LULA
Esse eu tenho certeza que é bom.

MARINA
Então me pega às sete. E agora
vamos dar um mergulho. Vem!

Marina puxa Lula e os dois mergulham no mar.



EXT. – SAíDA DO CINEMA – NOITE

Lula e Marina saem do Cinema Leblon onde no letreiro da
fachada se lê: “Hannibal: A Origem do Mal”.

LULA
Sabe que eu senti do cara? Imagina,
ser prisioneiro do passado…
Incapaz de esquecer, de perdoar…

MARINA
Verdade. Será essa a origem do mal?
A incapacidade de perdoar?

LULA
Não sei, mas faz sentido…

MARINA
Ou será que a pergunta certa é qual
a origem do bem?

LULA
Será o amor?

MARINA
Na biologia, muita gente acredita
que o amor começa com os mamíferos.
Eu até hoje me espanto com a
crueldade da natureza.

LULA
Eu nunca tinha pensado nisso…

MARINA
É que a gente vive num mundo que é
essencialmente humano, onde a
crueldade dos homens é muito mais
evidente que a crueldade da
natureza.

LULA
É, mas a natureza é cega,
completamente indiferente. Já os
homens, não. Eles escolhem ser
maus.

MARINA
É verdade… Só não sei se isso só
torna a crueldade da natureza ainda
pior.

LULA
É… Eu sou muito grato por viver
num mundo mais ou menos a salvo da
crueldade tanto dos homens quanto
da natureza.

MARINA
Você acredita em Deus, Louie?

LULA
Acredito. E você?

MARINA
Eu sou católica, Louie. Uma
pecadora apostólica romana.

LULA
Eu não tive uma educação religiosa.
Mas acredito que exista um Deus,
uma força superior que criou
tudo…

MARINA
Até o mal?

LULA
Responde você…

MARINA
Passo…

LULA
Um dia pagaremos para ver..

MARINA
Até lá, que tal uma água de côco?



EXT. – QUIOSQUE NO ARPOADOR – NOITE

Lula e Marina tomam uma água de côco sentados em cadeiras
postas bem na beira do calçadão de frente para o mar.Ela
olha fixamente o mar. Ele a observa e depois acaricia seus
cabelos. Marina olha para ele com ternura, um sorriso nos
lábios.

LULA
Quer dormir comigo?

Marina se limita a piscar um olho.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM

1.Lula pagando os côcos.

2. Lula e Marina separados andando pela rua quase vazia.

3. Marina passa o braço na cintura de Lula. Ele passa o
braço pelos ombros dela.



INT. – CASA DE LULA – NOITE

Lula e Marina entram na casa dele. No escuro a luz vermelha
da secretária eletrônica pisca. Lula pára, hesita.

MARINA
Enquanto você ouve seus recados, eu
vou ao banheiro. Onde é?

LULA
Tem um no corredor…

BANHEIRO

Marina faz hora no banheiro, se olha no espelho, faz careta.
Sai do banheiro.

CORREDOR

No corredor que é caminho de volta para sala, Marina simula
um jogo de amarelinha para ganhar tempo. Quando pára no
“Céu”, fica imóvel, expressão atenta. SOM de notas esparsas
de Blue Moon ao piano.

SALA

Lula está sentado ao piano, dedilhando notas. Marina, de pé
atrás dele,afaga seus cabelos.



MARINA
Eu vou para casa…

LULA
Não vai… Fica comigo.

Marina abraça Lula pelas costa e encosta a cabeça dele
contra sua barriga.



INT. – QUARTO DE LULA – NOITE

Marina com um camisão de Lula deitada de barriga para cima,
acordada. Lula dorme de lado, apoiado em seu ombro.



INT. – ESCRITóRIO DE CRIAçãO DE “COPACABANA” – DIA

Lula e seus colegas de trabalho, WILSON, MARTA, NICE, se
espalham pela amplo escritório da casa de LAURO SANTANA, o
chefe da equipe. Há uma estante cheia de livros e uma tv
imensa como todos os equipamentos. Um mesa de reunião, um
sofá e várias poltronas.

Wilson senta-se no chão ao lado de Lula, que está
esparramado numa poltrona.

WILSON
O que você tem?

LULA
Nada…

WILSON
Ô, meu irmão… Desabafa.

LULA
Beatriz teve de atrasar uns dias a
volta dela da Espanha.

WILSON
Tudo bem… São só uns dias… Não
é razão para tanta tristeza…

LULA
Eu sei… Mas a tristeza que me deu
foi outra.

WILSON
Fala…

LULA
Quando a gente acabar aqui, tomamos
um chopp…

WILSON
Combinado.



EXT. – VARANDA DE BAR – FIM DE TARDE

Lula e Wilson tomando chopp num restaurante em frente à
praia.

LULA
… E aí, quando eu ouvi a voz dela
meio triste por me dizer que ia se
atrasar mais três semanas e me dei
conta que eu estava contente porque
assim teria pelo menos mais um
tempo com a Marina, que estava ali,
na minha casa, esperando pra dormir
comigo, aquilo me deu um aperto no
coração… Porque foi aí que eu vi
que já estou envolvido com a Marina
muito mais do que eu poderia
imaginar ou gostaria…

WILSON
Pô, mas é muito pouco tempo!

LULA
Eu sei! E vou te contar uma
coisa… Você pode até não
acreditar. Mas a gente só dormiu
junto duas vezes… E eu… Bem, a
gente… A gente ainda nem transou!

WILSON
Não brinca!

LULA
Juro!

Wilson ri.

WILSON
Desculpa, Lula. Não é por mal, mas
é que ninguém poderia imaginar uma
coisa assim! Lula Lins dormindo com
uma gatinha e não transar com ela.

LULA
Pois é, maluco! Da primeira vez até
rolou uns beijos, uns amassos…
Mas não vou ficar dando detalhe pra
você porque acho horrível. E
ontem.. Pô, ontem eu nem tentei
nada… Só queria dormir abraçado
com ela, como se fosse a última vez
das nossas vidas… E eu acho que
vai ser isso mesmo… Não posso,
não quero me envolver com ela… E
nem quero que ela se envolva
comigo…

WILSON
Bacana você dizer isso. Você sabe o
quanto eu gosto da Beatriz. Acho
que vocês dois foram feitos um para
o outro. Mas vou te dizer: eu nunca
vi você assim antes, por mulher
nenhuma.

LULA
E eu já andava até meio
sossegadão… Sei lá… O Cláudio
até me sacaneava dizendo que eu já
estava a caminho do matrimônio.

WILSON
E cá entre nós, já não era sem
tempo.

LULA
É, vai ver que não… mas eu nunca
tinha pensado nisso. Eu sempre
achei que casamento era que nem
vacina.Aquela das gotinhas, sabe?
Não dói, mas é obrigatório. Então
um dia você vai lá, abre a boca,
pingam as gotinhas e pronto, você
está casado.

WILSON
E o pior é que seu sistema
imunológico é fraco…

LULA
Com assim, cara? De certo modo, eu
sou o sujeito mais fiel do mundo.
Eu faço sexo recreativo, mais nada.
E só quando a Beatriz se envolve
demais com o trabalho dela e me
deixa solto por aí. E tenho certeza
que ela sempre soube e nunca deu
muita bola.

WILSON
Mas não é exatamente isso que está
acontecendo…

LULA
O que que eu faço?

WILSON
Foge! Enquanto é tempo. A menos que
você queira terminar com a Beatriz.

LULA
Não! Eu amo a Beatriz!

WILSON
Eu sei. Mas é a primeira vez que eu
ouço você dizer.

LULA
É que eu sou um sujeito muito
reservado… Mas a Marina mexe
comigo.

WILSON
Isso eu também já sei. E é a
segunda vez que você diz isso em
menos de meia hora.

LULA
É, parece mesmo grave… Pede mais
dois chopps.

Lula começa a se levantar para ir ao banheiro quando o
celular dele emite um SOM de mensagem recebida. Ele pára,
congelado no meio do gesto de se levantar e Wilson também
pára com o dedo erguido para o garçom e a boca apenas
aberta. Os dois ficam assim uns segundos e juntos vão se
inclinando em direção ao celular. Lula aperta uma tecla e
mais outra e a mensagem aparece: “Vem me ver”. Lula e Wilson
se olham.

WILSON
Pode deixar que eu pago a conta.



EXT. – PRAIA DO DIABO – NOITE

Lula e Marina na praia do Diabo.

MARINA
Tenho uma coisa para te dizer…

LULA
Diz…

MARINA
Fiquei com saudade de você.

LULA
Eu também fiquei com saudades de
você.

MARINA
Você sabe o que isso significa?

LULA
Sei?

MARINA
Que a gente não pode mais se ver.

Lula ri.

LULA
É verdade…

MARINA
É…

LULA
E rima com saudade…

MARINA
Beatriz vai chegar e você está
gostando de mim e eu de você.Isso
nunca aconteceu antes com você e eu
não quero que aconteça agora. Não
comigo. A gente tem que se separar
antes que o pior aconteça…

LULA
O pior?

Marina ri e se levanta.

MARINA
Você ainda tem champanhe na
geladeira?

LULA
Sempre!



INT. – SALA DE LULA – MANHÃ

Uma garrafa de champanhe vazia sobre a mesa e apenas uma
taça. As roupas de Lula de ontem estão espalhadas próximas
ao sofá. No chão, numa das extremidades do sofá há cacos de
uma taça quebrada. Lula entra na sala, de short e cara
sonolenta, como se procurasse por alguém ou alguma coisa.
Observa a cena e depois recolhe suas roupas, ajeitando uma
ou outra coisa no lugar. Quando tenta juntar os cacos da
taça, corta o dedo. O sangue pinga no tapete branco. Lula
caminha até o banheiro do seu quarto e repara que no espelho
há um beijo de batom.



INT.- FLORICULTURA – DIA

Lula está no balcão da floricultura escrevendo um cartão,
enquanto a florista ajeita com cuidado as rosas vermelhas
que ele escolheu. A florista é jovem e cega. Eles estão
sozinhos na loja.

FLORA
Rosas vermelhas significam
paixão…

LULA
E se eu dissesse pra você que essas
rosas são brancas?

FLORA
Eu não acreditaria. Posso ouvir seu
coração daqui…

Lula ri e faz um gesto de desdém.

LULA
Você está sonhando! Essas flores
são para uma amiga da minha mãe que
faz aniversário hoje…

FLORA
Ah, Lula! Eu sou cega, mas não sou
boba… Há quantos anos conheço
você? Mas não se preocupe, eu
também sou muda… Acabou o cartão?

LULA
Acabei… Está aqui.

Lula estende o cartão para ela e suas mãos se tocam.

FLORA
Mão fria, coração quente…

Flora ajeita o cartão no buquê e o exibe pronto para Lula.

FLORA
Está bonito?

LULA
Está lindo! Ninguém faz arranjos
como você!

FLORA
Obrigada! Assim que o Chiquinho
chegar ele vai lá levar.

Lula estende uma nota para ela.

LULA
Ótimo! Dê o troco para ele. E mande
um beijo meu para sua mãe quando
ela chegar.

FLORA
Pode deixar! Tchau!

LULA
Tchau!

Lula sai da loja.



INT. – ESCRITÓRIO DE CRIAÇÃO DE “COPACABANA” – DIA

Lula com um bandaid no indicador escreve freneticamente no
seu laptop, mas com o dedo erguido, evitando tocar o teclado
com ele.Toda a equipe está reunida: Lauro, Wilson, Marta e
Nice.

MARTA
Eu acho que o Álvaro tem que casar
com a Deise!

NICE
Eu acho que não… E não adianta
vocês virem com esse papo de
pesquisa, porque o público está
dividido. Há quem adore que ele
seja esse bon-vivant incorrigível e
há quem o deseje casado.

WILSON
Certamente os casados!

NICE
Deve ser!

MARTA
Porque são felizes!

NICE
Ou porque não querem ver ninguém
feliz fora do casamento!

LAURO
Tem de tudo… Mas eu acho que já
era hora do Álvaro casar. O que
você acha, Lula?

LULA
Eu não sei… Eu gosto da idéia
simplesmente pela novidade. Mas
também acho legal que ele continue
do jeito que ele é… Como um
contraponto mesmo… Tem um bando
de gente no mundo que não casou,
não teve filhos e é feliz assim…
O Claudio, por exemplo…

MARTA
O Claudio é feliz?

LULA
Claro…Com seus altos e baixos,
como todo mundo.

WILSON
Do jeito dele…

LAURO
Como todo mundo…

NICE
É que a Marta acha que só existe um
jeito de ser feliz: o dela.

MARTA
Não é isso… Não precisa ser
exatamente igual, só parecido:
marido, filhos, um bom emprego,
amigos bacanas…

NICE
Eu não disse!

MARTA
Mesmo que eles não concordem com a
gente em tudo…

Marta se levanta e abraça Nice que finge resistir.

NICE
Sai pra lá, caretona!

MARTA
Não, não! Eu adoro você… Você é
como uma irmã pra mim!

NICE
Argh!

LAURO
Não adianta resistir, Nice. Nós
acabamos mesmo virando uma grande
família.

WILSON
De gente real e imaginária!

A equipe toda ri. Nice implica com Lula levantando o
indicador e imitando a pose dele escrevendo.



INT. – SALA DE LULA – NOITE

Lula entra em casa com o buquê de rosas vermelhas nas mãos.
Deixa as rosas sobre a mesa e pega o envelope que o
acompanha no lugar do cartão. É uma mensagem de Marina:

MARINA (V.O.)
São lindas as flores, Louie. Mas
não pude ficar com elas. Estou indo
agora para Minas e fico por lá um
tempo. A verdade, você sabe, é que
preciso ficar longe de você um
tempo. Tempo suficiente para que
tudo volte para seu lugar e a vida
siga como antes. Você sabe o que eu
quero dizer… E também o que eu
não quero dizer… Foi tudo muito
bonito, divertido e inesperado.
Inesperado demais! A ponto de não
caber nas nossas vidas. Enfim, é
isso, Louie. Sei que vou sentir
saudades – e você também – mas vai
passar, como tudo mais. Um beijo,
Marina.

SÉRIE DE PLANOS simultânea à voz de Marina:

1) Lula e Marina na praia do Diabo na noite anterior.

2) Os dois na casa de Lula abrindo um champanhe.

3) Os dois se beijando no sofá.

4) As roupas sendo atiradas no chão.

5) O rosto de Marina, os olhos de Marina, os seios de
Marina, o corpo de Marina.

6) Lula e Marina transando.

FUSãO PARA:



INT. – SALA DE LULA – NOITE

Lula dedilhando ao piano acordes de BLUE IN GREEN. Lula se
levanta, pega o celular e liga:

LULA
Oi, Claudio. Vamos beber alguma
coisa na praia? OK… Me encontra
então no quiosque do Marrom…
Tá… Tchau…



EXT. – CALÇADÃO DE IPANEMA – NOITE

Lula e Claudio sentado à mesa de um quiosque do Posto Seis.

CLAUDIO
Ela está certa, Lula…

LULA
Eu sei.

CLAUDIO
Beatriz chega quando?

LULA
Pois é, boa pergunta… Acho que no
fim dessa semana, começo da outra.
Ela é imprevisível.

CLAUDIO
Você também.

LULA
Até para mim mesmo. Como é que eu
poderia imaginar que as coisas
iriam acabar assim, comigo todo
enrolado, sem nem saber direito o
que estou sentindo?

CLAUDIO
Você está a um passo de se envolver
com essa menina, essa é a verdade.

LULA
Mas eu gosto da Beatriz!

CLAUDIO
A verdade é que você e ela criaram
uma relação muito cômoda para os
dois.

LULA
E isso não é bom?

CLAUDIO
Ao menos para vocês dois, sempre
foi. Ninguém exigia nada de
ninguém. Nada de casamento, filhos,
família. Nada. Ela focada
inteiramente no trabalho e você
simplesmente vivendo como se o
tempo não passasse pra você…

LULA
Você está parecendo minha mãe…

CLAUDIO
O que eu acho mais espantoso é que
nesses anos todos nunca tenha
aparecido ninguém para perturbar
essa paz… E quer saber? Assim que
a Beatriz chegar, você esquece essa
menina e tudo volta a ser como
antes.

LULA
Deus te ouça…

CLAUDIO
No fundo, o que deixou você confuso
foi que, pela primeira vez, não era
você quem estava dando as cartas…

LULA
É, acho que você tem razão. Ela me
surpreendia o tempo todo… E
bonitinha daquele jeito…

CLAUDIO
She put a spell on you, boy…

LULA
Mas vai passar, não vai?

CLAUDIO
A gente espera que sim.

LULA
Eu quero minha vidinha de volta.

CLAUDIO
Amar é um susto, não é, filho?

LULA
Você nunca amou ninguém?

CLAUDIO
Às vezes eu acho que não fiz outra
coisa…

LULA
Eu digo amar de verdade.

CLAUDIO
Mas o que é isso “amar de verdade”?
Você por acaso sabe?

LULA
Acho que não… Eu amo a Beatriz,
mas como você disse, é tudo tão
cômodo…

CLAUDIO
E não será isso o amor? Afinal, por
que rimar amor e dor, que foi o que
eu fiz a vida inteira?

LULA
Ei, o triste aqui hoje sou eu!

CLAUDIO
Disso eu entendo… E só conheço um
remédio.

LULA
Então pede mais dois.



EXT. – PRAIA – MANHÃ

Lula entrando no mar com sua prancha. Em cada uma das cenas
da sequência de montagem, Lula aparecerá com um calção
diferente e em ao menos uma delas o dia estará nublado.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM:

1. Lula desce numa onda.

2. Lula remando de volta.

3. Lula no mar esperando outra onda.

4. Lula começa a descer numa onda, mas desiste.

5. Lula saindo do mar.

FUSãO PARA:



EXT. – RUA – DIA

Lula dirigindo, óculos escuros, ouvindo TEREZA MY LOVE, com
TOM JOBIM.Em cada uma das cenas da sequência de montagem,
Lula aparecerá com uma roupa diferente, em ao menos uma
delas o dia estará nublado e em cada uma estará tocando uma
música do disco STONE FLOWER.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM:

1. Orla de Copacabana.

2. Túnel Novo.

3. Urca.

4. Lula andando pela rua.

5. Lula chegando numa casa.

FUSãO PARA:



INT. – ESCRITÓRIO DE CRIAÇÃO DE “COPACABANA” – DIA

Lula e a equipe trabalhando. Em cada uma das cenas da
sequência de montagem, Lula e todos os outros membros da
equipe aparecerão com roupas diferentes e em ao menos uma
delas o dia estará nublado.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM:

1. Lula digitando no laptop.

2. Marta trazendo sanduíches.

3. Wilson cochichando alguma coisa no ouvido de Nice que
atira uma bola de palpel em Lula.

4. Lauro fala para a equipe que ouve atenta.

5. Marta e Nice se despedindo e saindo juntas.

FUSãO PARA:



INT. – BAR/ QUIOSQUE/ RESTAURANTE – NOITE

Lula com amigos e amigas na noite do Rio. Lula aparecerá com
uma roupa diferente, em cada cena da sequência.

1. Lula jantando com Wilson e Lauro. Uma mulher se debruça
sobre Lauro, Lula flerta com ela.

2. Lula num bar do tipo JOBI, bebendo em pé com os amigos,
todos flertando com as mulheres que passam.

3. Lula num quiosque da praia sozinho quando uma moça chega,
dá dois beijos, e senta.

FUSãO PARA:



INT. – SALA DE LULA – NOITE

4. Lula em casa, sozinho, vendo tv. Ele atende o celular e
faz “pause” no filme. Ele se levanta, calça os chinelos,
pega uma camisa e se encaminha para a porta.

5. Lula em casa, sozinho, vendo tv. O celular pisca
sinalizando que alguém está ligando, mas Lula não atende.
Ele desliga a tv, se espreguiça e vai para a COZINHA. na
porta da geladeira há um bilhete: “BEATRIZ AMANHÃ ÀS 9:00”.

FUSÃO PARA:



INT. – CASA DE BEATRIZ – DIA

BEATRIZ (O.S.)
Enfim, sós!

Lula e Beatriz largam as malas no chão da sala e Beatriz se
pendura no pescoço de Lula. A CASA DE BEATRIZ é um amplo
três quartos em um edifício antigo do Jardim Botânico.

BEATRIZ
Que saudade de você, Guguinha!

Os dois vão se beijando até o QUARTO.

Ainda em pé e abraçados, Beatriz começa a tirar as roupas de
Lula.

BEATRIZ
Deixa eu ver se está tudo aqui…

LULA
Não está faltando nada…

BEATRIZ
Hummm… Uma coisa nova aqui… Não
estava aí ainda há pouco…

LULA
É um presente pra você.

BEATRIZ
Eu também tenho um monte de
presentes pra você…

LULA
Vem, vamos tirar esse gosto de
Espanha e nuvem…

BEATRIZ
De nuvem?

Os dois vão se despindo para o BANHEIRO.

BEATRIZ
Ai! Que saudade de tomar banho com
você!

Os dois vestem luvas de buchas de banho e começam a se
esfregar.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM deles esfregando diferentes partes do
corpo um do outro.

BEATRIZ (O.S.)
Eu comprei uns sabonetes…

LULA (O.S.)
Depois…

BEATRIZ (O.S.)
Eu não saio daqui por nada… Mas
você vai adorar…

LULA (O.S.)
Os cheiros…

BEATRIZ (O.S.)
E os nomes…

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM deles desensaboando um ao outro no
chuveiro.

LULA (O.S.)
Diz…

BEATRIZ (O.S.)
Almiscar…

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM deles caminhando molhados até a cama,
de volta ao QUARTO.

LULA (O.S.)
Repete…

BEATRIZ (O.S.)
Almiscar..

LULA (O.S.)
No meu ouvido…

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM deles molhados na cama. Água pingando
da cama para o chão.

BEATRIZ (O.S.)
Você namorou muito?

LULA (O.S.)
Não…

BEATRIZ (O.S.)
Eu tenho um presente pra você…

LULA (O.S.)
Depois…


INT. – CASA DE DALVA – DIA

DALVA é a mãe de Beatriz. Hippie nos anos 70, mãe solteira
de Beatriz, depois de alguns “casamentos”, ela hoje vive
sozinha em um dois quartos em Copacabana.

Os presentes trazidos por Beatriz se espalham pelo sofá.
Dalva experimenta uma mantilha espanhola.

DALVA
Ah! Obrigada, Bia! Eu sempre quis
ter uma assim!

BEATRIZ
E um leque!

Dalva abri o leque num gesto teatral e bate os pés no chão
num passo de flamenco. Sustenta a pose.

DALVA
Você já contou?

BEATRIZ
Não.

DALVA
Eu acho que você já devia ter
contado.

BEATRIZ
Calma! Com o Guga tudo tem um
jeito, uma hora… E não era
ontem… Você sabe o que ele me
disse quando eu perguntei se ele
tinha namorado muito?

DALVA
Não…

BEATRIZ
Exatamente! Ele disse “não”.

DALVA
Ainda bem…

BEATRIZ
Eu não gostei daquele não…

DALVA
É, foi melhor esperar…

BEATRIZ
Claro! E ontem o dia era dele.
Fazia tempo que a gente não ficava
junto.Já aconteceu de numa dessas
ausências mais longas ele se
encantar por alguém. Nada que não
passe logo…

DALVA
Não tenha medo…

BEATRIZ
Eu nunca tive tempo pra isso,
mamãe…

DALVA
Assim você me convence que a nossa
dureza só te fez bem!

BEATRIZ
Eu não tenho do que me queixar.
Sempre gostei da nossa vida.

DALVA
Eu também acho que nossa vida foi
sempre muito legal.

BEATRIZ
E o namorado?

DALVA
Tudo bem…

BEATRIZ
Ainda é o mesmo?

DALVA
Vai fazer um ano!

BEATRIZ
Olé!



INT. – CASA DE MARIA AUGUSTA – NOITE

Jantar na casa de Maria Augusta. Apenas Maria Augusta,
Beatriz, Lula e Claudio. É um jantar íntimo com um garçom
servindo. Todos na varanda. Beatriz puxa Augusta para um
canto.

BEATRIZ
Quero contar uma coisa pra você…

AUGUSTA
Conta, meu amor…

BEATRIZ
Eu estou grávida.

AUGUSTA
Ah, Meu Deus! Que felicidade! O
Lula já sabe?

BEATRIZ
Não… Quis contar para você
primeiro.

AUGUSTA
Que honra!

BEATRIZ
Você acha que ele vai reagir bem?
Confesso que foi tudo planejado por
mim, sem nenhuma consulta a ele.

AUGUSTA
Fez muito bem. E você pode omitir
esses detalhes, afinal…

BEATRIZ
Eu me preparei para isso, Augusta.
Eu quero ser mãe.

AUGUSTA
E eu quero muito ser avó! Estou tão
feliz. Depois quero saber tudo.
Você já tem certeza?

BEATRIZ
Sim, mas a confirmação mesmo só
daqui a uns dias. Tem certos
detalhes que eu quero que o Lula
seja o primeiro a saber…

AUGUSTA
Ai, mais surpresas! Mas essas a
gente espera com prazer! Já fico
feliz de você ter me contado!
Feliz! Muito feliz!

BEATRIZ
Mas não pode contar para ninguém!

AUGUSTA
Eu juro!



EXT. – UMA AVENIDA DO RIO – DIA

Beatriz entra numa dessas galerias de edifícios comerciais
que têm lojas e salas. Uma das lojas no térreo é de roupas e
acessórios de bebê. Ela passa direto e entra no elevador.
Salta em um andar, entra na clínica onde vai buscar os
exames. Pega os exames, sai. Começa a abri-los no elevador.
Sai do elevador e pára em frente à loja. Lê o resultado,
sorri e entra na loja.



EXT. – LUGAR DAS FOTOS – DIA

Lula e Beatriz estão no mesmo lugar das fotos da cena 4.

BEATRIZ
O senhor sabe, senhor Luis Gustavo
Magalhães Dantas, que nós só nos
reunimos aqui neste tradicional
reduto da alma carioca para
registrar momentos especiais da
nossa vida, não sabe?

LULA
Confere!

BEATRIZ
Pois bem…. Eu, Maria Beatriz de
Almeida tenho hoje uma importante
comunicação a lhe fazer, senhor
Luis Gustavo.

LULA
Atenção! Câmeras!

BEATRIZ
Sim, câmeras…

Beatriz chama um garçom amigo e explica para ele o que ela
quer que ele faça exatamente com a câmera. Beatriz senta-se
com Lula na pose própria dessa foto. Enquanto o garçom
dispara fotos, Beatriz sussurra no ouvido de Lula:

BEATRIZ
Você vai ser pai…

Lula faz uma cara de espanto.

BEATRIZ
Eu vou ser mãe…

Lula a abraça e beija efusivamente. O garçom num improviso
resolve continuar a tirar fotos.

CORTA PARA:



EXT. – LUGAR DAS FOTOS – DIA

Lula e Beatriz no mesmo lugar, alguns minutos depois.

LULA
Pai…

BEATRIZ
De gêmeos!

LULA
Pague um e leve dois!

BEATRIZ
Isso! Você ganhou um bônus de
promoção!

LULA
Eu acho que eles chamam isso de
“fidelização”.

BEATRIZ
Eu não ousaria tanto…

LULA
Isso é o que eu chamo de respeitar
o cliente.

BEATRIZ
É, mas como diria qualquer gerente
de banco,filho exige muita
contrapartida.

LULA
Você quer dizer que a minha boa
vida está com seus dias contados?

BEATRIZ
Certamente!

LULA
Sabe que eu não acho ruim?

BEATRIZ
Acho bom!

LULA
Foi o que eu disse!

CORTA PARA:



INT. – CASA DE CLAUDIO – NOITE

Sala da casa de Claudio.

CLAUDIO
Foi o que você disse? E vou te
dizer: deve ser muito bom! E já
está na hora de você ser pai!

LULA
Todo mundo me diz isso agora!

CLAUDIO
É claro! Quando você nasceu, seu
pai estava mais ou menos com a sua
idade. Além do mais, você já está
começando a ficar careca…

LULA
Não toca nesse assunto…

Os dois riem.

CLAUDIO
Pois é… Vou lhe dar o argumento
definitivo: pior do que ficar
careca é ficar careca sem filho. O
careca sem filho é a encarnação do
pessimismo. Eu não tive filhos, mas
também não fiquei careca!

LULA
Então ainda dá tempo…

CLAUDIO
De ficar careca?

CORTA PARA:



INT. – BAR – NOITE

Lula e Wilson.

WILSON
Já estava mesmo na hora de você ser
pai…

LULA
Conhece a relação entre a
parternidade e a calvicie?

WILSON
Não.

LULA
É uma tese interessante. Depois te
explico…

WILSON
E vão ser umas criancinhas lindas,
imagina!

LULA
Vão mesmo! Me dá um certo medo,
mas, ao mesmo tempo, eu estou
adorando a idéia. Eu só preciso me
acostumar!

WILSON
Você vai ter nove meses pra isso!

LULA
Agora entendi porque a gravidez é
tão longa…

CORTA PARA:



EXT. – LUGAR DAS FOTOS – NOITE

No mesmo dia das cenas 37 e 38.Lula e Beatriz abraçados
assistem o pôr-do-sol.

LULA (O.S.)
Nove meses…

BEATRIZ (O.S.)
Hummhum…

LULA (O.S.)
Dois bebês…

BEATRIZ (O.S.)
Humhum…

LULA (O.S.)
Eu e você…

BEATRIZ (O.S.)
Humhum…

LULA (O.S.)
Juntinhos?

BEATRIZ (O.S.)
Feito ninhada…

LULA (O.S.)
Topo!

CORTA PARA:



INT. – CASA DE DALVA – DIA

Dalva e Beatriz.

DALVA
E vocês vão casar?

BEATRIZ
Nem falamos nisso, mamãe…

DALVA
E em morar junto?

BEATRIZ
Também não! Coisa careta, hein?

DALVA
Eu sei o que é criar uma filha
sozinha…

BEATRIZ
Eu sei que você sabe… Mas não se
preocupe, eu pensei muito até
decidir ter esse filho… Esses
filhos… Eu me preparei… Queria
gêmeos… E o Lula talvez não tenha
vocação para marido, mas certamente
vai ser um pai maravilhoso..

DALVA
E dinheiro nunca vai faltar para
ele…

BEATRIZ
E nem pra mim, se Deus quiser. Sua
filha agora tem uma carreira
internacional. Trabalhou com
Almodóvar. E isso é só o começo…
Espere só até Woody Allen me
conhecer!

DALVA
E quer saber? O Lula tem tudo pra
virar um maridão.

BEATRIZ
Eu também acho! Mas a verdade é que
eu quero ter um filho dele…

DALVA
Dois…

BEATRIZ
Duas…

DALVA
Já tem certeza?

BEATRIZ
Sim…



EXT. – PRAIA – DIA

Da beira da praia, Lula observa o mar ainda vazio, a prancha
em punho. Biku vem lhe cheirar as pernas.

MARINA (O.S.)
Oi, Louie…

LULA
Marina! Quando você chegou?

MARINA
Ontem à noite… Como você está?

LULA
Tudo bem. E você?

MARINA
Beatriz chegou?

LULA
Sim…

MARINA
Era o que eu imaginava… Eu
preciso conversar com você…

LULA
Eu sei… Quero dizer, eu também
queria conversar com você… Tem
uma coisa que eu preciso contar a
você.

MARINA
Eu também tenho uma coisa pra
contar pra você. Quem começa?

LULA
Talvez seja melhor que eu comece…

MARINA
Começa você então…

LULA
Bem… Você mexeu muito comigo…

MARINA
Eu acho que você pode pular essa
parte…

LULA
A Beatriz voltou…

MARINA
Louie, eu não quero estragar sua
vida, não se preocupe…

LULA
Eu sei que não… Mas o que
acontece é que…

MARINA
Mas eu tenho uma coisa que você
precisa saber…

LULA
Mas antes de me contar, me ouve…

MARINA
Está bem, fala…

LULA
A Beatriz está grávida.

Marina vai ficando cada vez mais pálida, tenta se conter,
mas não consegue e vomita na frente de Lula.



INT. – CASA DE MARINA- DIA

Marina e Lula na cozinha.

LULA
Então você ainda não tem certeza?

MARINA
Não, mas tudo indica que sim… Eu
fiz aqueles testes de farmácia…
Por isso voltei para o Rio…

LULA
Marina, desculpe, mas estou
pasmo…

MARINA
Eu também, Louie… Mas o que eu
quero te dizer é isso: eu vou ter
esse filho. E nem pense em me dizer
o contrário!

LULA
De jeito nenhum!

MARINA
Não quero atrapalhar sua vida, mas
você é o pai. Se tiver alguma
dúvida, aceito fazer um exame de
DNA. Meu filho vai ter pai. Mas
isso não significa que você tenha
de casar comigo ou qualquer coisa
parecida. Construir uma família não
estava nos meus planos, mas, graças
a Deus, eu tenho meios para
reprogramar minha vida sem desviar
meu rumo.

LULA
Eu não quero mudar sua vida…

MARINA
Já mudou, Louie… Mas ela só vai
ficar mais rica, não se preocupe…

LULA
Eu não vou abandonar você…

MARINA
Não se preocupe, eu sei me
virar sozinha, Louie… Eu só
queria que você soubesse que
vai ser pai. Só não poderia
imaginar que… você já
soubesse! Mas agora vai, me
deixa descansar… Sozinha.


EXT. – PORTA DO PRéDIO DE CLAUDIO – DIA

Lula espera a chegada de Claudio. Claudio finalmente chega
num triciclo desses de entregadores de água e côco.

CLAUDIO
Vim o mais depressa que pude!

Claudio salta do triciclo. Ele está de porre. Bate
continência para Zeca.

CLAUDIO
Obrigado, Zeca! Você é um anjo!

ZECA
O senhor também, seu Claudio!
Tchau!

CLAUDIO
Tchau! Venha, Lula, vamos subir…



INT. – CASA DE CLAUDIO – DIA

Lula e Claudio no banheiro. Lula sentado no vaso enquanto
Claudio se ajeita diante do espelho, toalha enrolada na
cintura, depois do banho.

CLAUDIO
Menino, essa eu nunca vi!

LULA
Nem no cinema…

CLAUDIO
É, que eu saiba, nem no cinema…
Só perguntando para o Scorsese…
Três filhos; de duas mulheres
diferentes;  todos nascendo ao
mesmo tempo…

LULA
Bom, Maria Augusta não queria
netos? Pois então que se prepare!

CLAUDIO
É verdade! Garanto que sua mãe vai
adorar!



INT. – CASA DE AUGUSTA – DIA

Lula espera na varanda que sua mãe entre.

AUGUSTA
Bom dia, querido! A que devo a
honra desta visita tão cedo?

LULA
Bom dia, mamãe. Eu tenho uma coisa
para contar pra você…

AUGUSTA
Uma surpresa?

LULA
Não tenho a menor dúvida que sim!

AUGUSTA
Será mesmo?

LULA
Com toda a certeza!

AUGUSTA
Humm… Vamos ver então se eu ainda
não sei…

LULA
Vcê vai ser avó!

AUGUSTA
Ah! Eu vou ganhar um neto!

LULA
Um só, não…

AUGUSTA
Então era isso!? Vão ser gêmeos?

LULA
Também…

AUGUSTA
Como assim: “também”?

LULA
Vão ser três…

AUGUSTA
Trigêmeos?

LULA
Não, não, gêmeos… É que são
duas…

Lula faz com os dedos.

AUGUSTA
Duas meninas?

LULA
Não, mamãe! Duas mulheres!

AUGUSTA
Duas mulheres?

LULA
Sim, duas mulheres…

AUGUSTA
Grávidas…

LULA
Isso…

AUGUSTA
De você…

LULA
Claro!

AUGUSTA
A Beatriz…

LULA
Sim. E a Marina… Você não
conhece…

AUGUSTA
Ainda! Meus netos… Todos… De
uma vez só…

LULA
Eu também ainda não me acostumei
com a idéia.

AUGUSTA
Meu filho, estou perplexa. Mas
poucas vezes na minha vida me senti
tão feliz! Me dá um abraço!

Lula abraça Augusta.

LULA
Eu também estou muito feliz… Mas
estou muito assustado também…
Parece uma coisa mágica, não
parece?

AUGUSTA
Parece, sim…

LULA
E aí me dá um medo.

AUGUSTA
Eu sei…

LULA
O que eu digo para a Beatriz?

AUGUSTA
A verdade.

LULA
Ela vai me odiar por isso.

AUGUSTA
Odiar, nunca. Mas vai sentir muita
raiva. Mas ela é forte e obstinada.



INT. – CASA DE BEATRIZ – NOITE

Lula e Beatriz na sala.

BEATRIZ
Filho da puta!

Beatriz anda de um lado para outro.

BEATRIZ
Filho da puta! Que decepção! Eu
nunca contei com você para marido.
Mas apostava em você como pai.
Perdi.

LULA
Eu serei um bom pai.

BEATRIZ
Mas nós nunca seremos uma família!
Um pai dividido entre duas
famílias!

Beatriz começa a chorar.

BEATRIZ
Eu queria uma família… Nunca
achei que nós fôssemos casar
exatamente… Mas seríamos uma
família. Só nós…

LULA
Vai ser assim…

Beatriz se recompõe: enxuga as lágrimas, assoa o nariz.

BEATRIZ
Pirou? Você de repente se tornou um
homem de duas mulheres. Goste você
disso ou não! Só que acontece uma
coisa: eu não sou mulher de dividir
homem. Entendeu? Você vai continuar
sendo o pai dos meus filhos. O pai
que eu escolhi. Mas meu… meu sei
lá o quê? Sinto muito! Minha única
vontade agora é que você vá embora.
Sério… Não estou nem brigando com
você porque ainda estou boba demais
pra isso. Puta da vida, mas boba
pra qualquer reação. Então vai
embora, vai. Amanhã a gente se
fala… Ou, depois… Outra dia a
gente briga… Hoje não dá.

Beatriz leva Lula até a porta.



EXT. – PRAIA – NOITE

Lula caminha pela beira da praia. Dois castelos de areia e
entre eles, dois cachorros brincam. O mar chegando muito
perto dos castelos, ameaçando um deles.

MÚSICA de fundo: INÚTIL PAISAGEM no piano.

LULA (V.O.)
Tenho duas mulheres. Grávidas. E
nenhuma me quer. Nenhuma das duas
confia em mim, nenhuma delas
acredita em mim. As duas me acham
um imbecil. E um canalha. Um
canalha imbecil ou um imbecil
canalha. Dá no mesmo. Um bom
reprodutor certamente. E talvez um
bom pai… E eu nunca sequer pensei
nisso. Ou em qualquer coisa
parecida com filhos, família,
casamento… E a coisa desaba em
cima de mim desse jeito… Eu
imaginava que um dia, quando eu
menos esperasse, acordaria casado
com a Beatriz e pronto. E agora
tenho duas mulheres, duas mães de
filhos meus e nenhuma me quer.
Incrível. E não há nada que eu
possa fazer… Nada.



INT. – CASA DE LULA – NOITE

Lula e Wilson.

WILSON
É claro que pode! Você pode fazer
muita coisa, sim. Claro que pode.
Aliás, você tem de fazer alguma
coisa…

LULA
Devo começar mandando flores?

WILSON
Não vai fazer nem cócegas.

LULA
Você acha?

WILSON
Você não está lidando com mocinhas
seduzíveis, mas com duas mulheres –
grávidas e enfurecidas.

LULA
Uau!

WILSON
Então não me venha com flores. Você
precisa de artilharia pesada.

LULA
O que você sugere?

WILSON
O impossível! Se dividir entre elas
sem escolher nenhuma.

LULA
Isso parece oráculo!

WILSON
Se você escolher uma, perde a
outra. O amante elas já conhecem.
Está na hora de você mostrar que
também é um homem.

LULA
Exatamente! Eu só não sei como
fazer isso.

WILSON
Então não faça nada. Enquanto isso,
faça um favor pra todos nós: não
mande flores.



EXT. – CALçADA EM FRENTE à FLORICULTURA – DIA

A floricultura vista de fora.

LULA (V.O.)
“Antes de qualquer coisa e sobre
todas elas: eu amo você. Eu não
escolhi nada disto e teria aceito
feliz o destino que você traçara
para nós dois. Mas não foi assim
que aconteceu. Hora de você decidir
se quer a mim ou a seu destino
inventado. Mil Beijos. Guga”

Chiquinho sai da floricultura com um buquê lindíssimo.

INT. – CASA DE BEATRIZ – FIM DA TARDE

Beatriz com roupas de trabalho ainda arruma as flores num
vaso.

LULA (V.O.)
“Antes de qualquer coisa e sobre
todas elas: eu amo você.”

INT. – CASA DE MARINA – FIM DA TARDE

Marina chega em casa, largas as coisas e liga a secretária.

LULA (V.O.)
(Imitando a chiadeira de uma
transmissão de rádio feita por
um avião em queda no meio do
Pacífico)
Dra. Marina! Dra. Marina, Câmbio!
tenho uma coisa muito importante
para lhe dizer. Câmbio! Responda!
Mayday! Mayday! Meu avião está
caindo! Sem combustivel! Vou tentar
pousar naquela pequena praia que
você conhece! Venha me resgatar!
Câmbio!

EXT. – PRAIA DO DIABO – NOITE

Lula na praia do Diabo. Chega Marina.

MARINA (O.S.)
O socorro está chegando! Viemos
resgatar você!

LULA
Graças a Deus! Você recebeu minha
mensagem!

Marina estende o braço para Lula e o ajuda a se levantar da
areia.

LULA
Obrigado por vir.

MARINA
Nós precisamos muito conversar.

EXT. – CALÇADÃO DE IPANEMA – NOITE

Lula e Marina caminham lado a lado.

LULA
Eu vou estar com você sempre… Não
quero que você se sinta sozinha.

MARINA
Obrigado, Louie, mas eu sei me
virar.

LULA
Não duvido. Mas eu gostaria que
você entendesse uma coisa: eu quero
ser um pai para o meu filho. E não
é só isso…

MARINA
Fala…

LULA
Eu imagino que você me ache um
sujeito imaturo, um porra-louca, um
bon vivant… E você tem razão. Mas
do meu jeito meio torto eu amo
você, Marina.

MARINA
Louie..

LULA
Eu não me importo que você não
acredite… Mas desde o começo,
desde a primeira vez que a gente se
viu, eu senti…

MARINA
Sentiu que eu ia ser um problema na
sua vida…

LULA
É… Mas um bom problema…

MARINA
Eu hoje posso dizer que senti a
mesma coisa, Louie. E não se
preocupe. Eu acredito em você.
Ainda que eu tenha a certeza que
“eu te amo” pra você nunca incluiu
casamento, filhos ou qualquer coisa
que durasse mais tempo que um filme
com final feliz.

LULA
Sabe, desde pequeno eu sempre me
perguntei o que acontecia com as
histórias depois que o filme
terminava… Todos aqueles
personagens… Acho que foi por
isso que eu acabei virando
roteirista em vez de músico.

MARINA
Quem sabe agora você descubra…

LULA
É, quem sabe agora eu comece a
construir minha própria história.

MARINA
E a Beatriz?

LULA
Ela ficou muito puta comigo…

MARINA
Posso imaginar…Você a ama…

LULA
Também…

Os dois riem.

INT. – CASA DE LULA – NOITE

Lula está deitado na cama, na semiescuridão do quarto. O
sinal de mensagem recebida no celular toca e a luz do
aparelho se acende. Lula salta, pega o aparelho sobre o
criado-mudo, lê a mensagem e responde. Espera. Segundos
depois, nova mensagem. Ele lê, sorri e responde. Nova
espera, mais ansiosa. Finalmente, a terceira mensagem chega.
Ele lê, salta da cama e começa a se vestir.

INT. – CASA DE BEATRIZ – NOITE

Lula abre a porta e entra devagar. A sala está toda
iluminada por velas. Ele entra.

BEATRIZ (O.S.)
Espero que você goste…

Ao redor dos sofás da sala, há champanhe e talvez ostras,
doces e flores. Beatriz está acomodada em um sofá. E jazz
toca ao fundo.

LULA
Está lindo…

BEATRIZ
Vem… Precisamos conversar…

Lula se acomoda no sofá próximo de Beatriz.

BEATRIZ
Você não quer champanhe?

LULA
Eu não estou bebendo…

BEATRIZ
Nem eu…Mas tem água também… E
suco.

Lula serve água para os dois.

BEATRIZ
Obrigado… Guga, eu preciso de
você. Eu sou uma mulher forte, mas
eu preciso de você…

LULA
Eu vou estar sempre aqui, Bia…

BEATRIZ
Você já conversou com a… outra…
moça?

LULA
Marina… O nome dela é Marina.

BEATRIZ
Você já conversou com ela?

LULA
Sim, eu tenho conversado com ela…

BEATRIZ
E?

LULA
Ela está bem… Forte.

BEATRIZ
Ela vai mesmo ter essa criança?

LULA
Vai.

BEATRIZ
Você quer?

LULA
Quero… E ela também.

Beatriz tenta segurar o choro, mas não consegue.Lula tenta
abraçá-la, mas ela se afasta.

BEATRIZ
Eu nunca vou perdoar você…

LULA
Vai, sim…

Beatriz pára de chorar e olha para Lula.

BEATRIZ
Como você é pretensioso…

LULA
Eu amo você, Bia. E foi preciso
essa confusão toda para eu
descobrir…

BEATRIZ
E a… Marina?

LULA
Ela me balançou como ninguém depois
de você… Eu nunca fui exatamente
fiel…

BEATRIZ
Eu sei…

LULA
E eu sei que você sempre soube. E
nunca se importou…

BEATRIZ
Eu fritava o peixe, mas nunca
deixei de olhar o gato…

LULA
E eu acho que a vida continuaria
assim, mesmo depois das crianças,
se…

BEATRIZ
Se não fosse ela!

LULA
Sim, se não fosse ela…

BEATRIZ
E agora, Guga?

LULA
Não sei, Bia… Acho que agora eu
vou deixar de ser um gato para me
transformar num homem…

BEATRIZ
Que merda!

Os dois riem.

BEATRIZ
Me dá um abraço…

Os dois se abraçam.

BEATRIZ
Tudo bem você virar um homem, mas
promete que você nunca vai deixar
de ser meu gato…

LULA
Prometo…

BEATRIZ
Você sabe o que isso significa, não
sabe?

Beatriz não espera que Lula responda. Levanta-se rápido e o
puxa para o quarto.

CORTA PARA:

WILSON (V.0.)
Cara, você é muito filho da puta…

SEQÜENCIA DE PLANOS:

1) Lula com Beatriz na casa dela, os dois muito à vontade
cozinhando no dia seguinte à cena anterior.

2) Lula no celular, num canto da sala, observado por Beatriz
com ar contrariado.

LULA (V.O.)
Não sou, não, Wilson… Eu
realmente amo as duas…

3) Lula com Marina e Biku na casa dela.

4) Os três passeando na praia. Lula recebe uma mensagem no
celular, ri e responde enquanto Marina brinca com Biku.

LULA (V.O.)
Eu sei que é difícil entender… Eu
sempre amei a Bia e a Marina é uma
pessoa maravilhosa e vai ser mãe de
um filho meu…

5) Lula com Beatriz na galeria onde ela tem o médico. Eles
param em frente à loja de roupas infantis.

6) Lula com Marina faz um teatrinho com marionetes de dedo
na mesa de restaurante. Os dois riem.

WILSON (V.0.)
E como as duas estão se entendendo?

LULA (V.O.)
Não estão…

CORTA PARA:

INT. – CASA DE LULA – TARDE

Lula caminha pela casa com o telefone no ouvido.

LULA
Para Marina é mais fácil… Acho
que até por temperamento… Mas a
Beatriz tem se esforçado. Ela é
determinada, dominadora. É difícil
para ela aceitar que as coisas
tenham escapado do controle dela…

WILSON (V.0.)
Imagino… E você, como está?

LULA
Cara, desde que você saiu de
férias, tanta coisa mudou… Quero
dizer, dentro de mim…É muito
estranho… Não tem gente que fica
de cabelos brancos de um dia pro
outro por causa de um problema
muito sério? Pois é… Eu acho que
amadureci… Não sei explicar muito
bem… Eu não te contei? Eu sonhei
com meu pai…

WILSON (V.0.)
Rapaz! Não, não me contou nada…

LULA
Você que é espírita vai ficar
arrepiado…

WILSON (V.0.)
Conta logo!

LULA
Foi naquela semana que você viajou
de férias e as duas estavam me
desprezando, eu me sentindo o
último dos homens…

CORTA PARA:

EXT. – MAR – AMANHECER

LULA (V.O.)
Eu sonhei que eu estava nadando num
mar imenso… Eu ia na direção do
sol… Eu não sabia se era um
nascente ou um poente e aquilo me
angustiava porque eu tinha medo de
que o mar mergulhasse na escuridão
antes que eu alcançasse algum
lugar… Uma ilha talvez… Só que
de repente em comecei a sentir uma
especie de dor, uma queimação pelo
corpo todo e aí eu me dei conta que
o mar, a água, era de vidro e eu
estava sangrando todo, e quanto
mais eu nadava, mais eu me
cortava… A dor foi crescendo, eu
me sentia queimando… Então de
repente eu saquei que o sol estava
nascendo e que aquele sangue todo
meu também era a luz do sol, do
nascente… E aí eu me acalmei e
continuei nadando… Até que eu
cheguei numa praia… A areia era
muito branca e eu não sentia dor
mas estava todo cortado e pingando
sangue, muito sangue, o corpo todo
retalhado… Então meu pai apareceu
e veio na minha direção e aí quando
a gente ficou frente a frente ele
me abraçou, me abraçou longamente,
e quando ele se afastou meu corpo
todo estava limpo, sem um corte,
todo são…

WILSON (V.0.)
Puxa, que lindo!

LULA (V.O.)
Espera, não acabou… Então não sei
bem como um coração apareceu na mão
dele… Ele sorriu e com a outra
mão abriu meu peito e enfiou lá
dentro aquele coração e me abraçou
de novo… Foi aí que acordei…
Acordei numa paz incrível…

WILSON (V.0.)
Cara, demais!

LULA
O mais louco é que desde esse dia
eu comecei a me sentir outro…
Você acredita?

WILSON (V.0.)
Acredito, claro!

LULA
Meu irmão, vou ter que desligar
agora… Eu marquei de almoçar com
minha mãe… Abração. E até a
volta!

INT. – CASA DE DALVA – DIA

BEATRIZ
Eu estou achando uma péssima
idéia…

DALVA
Que nada, Beatriz! Vai ser
divertido, garanto a você. Além do
mais, do jeito que as coisas
andam…

BEATRIZ
Você sabe que eu não acredito
nessas coisas…

DALVA
Depende! Eu já vi cada coisa…

BEATRIZ
Ainda mais em cartomantes!

CORTA PARA:

INT. – HALLL DE ENTRADA DE APARTAMENTO – DIA

Dalva e Beatriz aguardam no hall de entrada de um dos
apartamentos que a porta se abra. O hall é pequeno, são só
dois apartamentos por andar, mas limpo e bem iluminado.

DALVA (V.O.)
E não é um cartomante qualquer!

BEATRIZ (V.O.)
Um cartomante?

DALVA (V.O.)
É! Um cartomante!

A porta finalmente se abre e elas são recebidas por um homem
alto, musculoso, os cabelos e o bigodinho pintados de acaju,
coberto de tatuagens. Ele veste uma camisa branca de mangas
curtas e gola alta que deixa à mostra as tatuagens e os
colares que usa. Nos dedos, alguns anéis.

HÉLIO
Boa tarde, queridas! Hélio de
Xangô.

CORTA PARA:

INT. – CASA DE HELIO – DIA

O apartamento de Helinho de Xangô é um três quartos antigo,
amplo. A sala não está exatamente desarrumada, mas há um
prato sobre a mesa de centro, a tv está ligada sem som num
canal de desenhos, as almofadas do sofá estão espalhadas.

HéLIO
Entrem, queridas, entrem! Por
favor, só não reparem a bagunça…

Helinho chuta quase discretamente alguma coisa para debaixo
da poltrona e sorri.

HéLIO
Venham por aqui… Eu atendo lá
dentro…

Helinho aponta para um corredor com várias portas: a
cozinha, um banheiro social e três quartos.

HéLIO
A última porta à esquerda, no fim
do corredor.

Dalva e Beatriz se encaminham para o “escritório” de Helinho
e na passagem pela cozinha vislumbram o vulto de um rapaz
muito jovem, de short, descalço e sem camisa.

INT – “ESCRITóRIO” DE HéLIO – DIA

O “escritório” de Hélio é um quarto sem armários com uma
mesa grande no centro, com uma cadeira de costas para um
longo altar improvisado cheio de imagens, e outras duas
cadeiras do lado oposto, em frente à primeira. No altar, ao
centro uma imagem de Jesus/ Oxalá cercada por diversas
imagens menores: uma Cigana/ Pomba Gira, um Zé Pilintra, um
São Jorge/ Ogum, um personagem da Linha do Oriente que mais
parece saído de um conto das Mil e Uma Noites, um Caboclo,
um Preto Velho, São Cosme, Damião e Dom Um cheios de balas.
Flores e velas enfeitam o altar. Uma espécie de abajur
ilumina a sala com sua luz alaranjada que compensa o
tremeluzir das velas. Sobre a mesa de Hélio, há, de um lado,
uma imagem de São Jerônimo/ Xangô com uma vela de sete dias
aos pés. Do outro, um baralho gasto, uma cestinha com
búzios, outras com guias e um castiçal com três velas.

HÉLIO
Sentem-se, por favor, queridas.

Dalva e Beatriz sentam-se nas cadeiras dos consulentes e
aguardam enquanto Helinho acende as velas do castiçal e
depois senta-se em seu lugar.

HÉLIO
Com quem vamos começar?

Helio pega o baralho e começa a embaralhar as cartas olhando
para as duas.

DALVA
Ela…

BEATRIZ
Eu não tenho nada para perguntar…

HÉLIO
Beatriz, não é?

BEATRIZ
É…

Helinho pára de embaralhar as cartas e coloca o baralho
sobre a mesa em frente a Beatriz.

HÉLIO
Corte…

Beatriz obedece e corta o baralho em dois pedaços. Helio
toma o baralho, dá uma embaralhada rápida e de novo coloca o
baralho em frente a Beatriz.

HÉLIO
De novo… Agora em três…

Beatriz corta o baralho em três partes e as dispõe lado a
lado. Helinho abre a primeira carta do monte do meio e a
coloca sobre a mesa. É um Ás de Copas.

HÉLIO
Sua mãe está muito preocupada com
você, Beatriz…

DALVA
É verdade…

Hélio tira uma carta do monte da direita. É a Imperatriz.

HÉLIO
Você está grávida, não é?

BEATRIZ
Já dá pra ver…

Hélio puxa outra carta do monte da esquerda. É um Valete de
Paus.

HÉLIO
Mas esse homem…

BEATRIZ
O que que tem?

Helio recolhe as cartas, embaralha rapidamente e coloca de
novo na frente de Beatriz.

HéLIO
Corte de novo… Em dois, desta
vez… Calma… Em montes iguais.
Tente cortar em dois montes o mais
iguais que você conseguir…
Isso…

Hélio puxa uma carta do monte da esquerda. É o Carro. Hélio
sorri.

HéLIO
É uma relação muita antiga…
Talvez de outras vidas…

Helio tira uma carta do monte da direita e cruza sobre a
primeira. É de novo o Ás de Copas. Hélio parece se espantar
e ri alto como que surpreso.

HÉLIO
É! Vocês se amam muito. Há uma
intensa, como se diz, cumplicidade,
entre vocês dois… Dez anos?

Beatriz olha para Dalva.

BEATRIZ
Exatamente…

Helio puxa outra carta do monte da esquerda e a coloca no
alto, sobre as outras duas. É uma Dama de Ouros.

HÉLIO
Você planejou muito essa relação,
essa gravidez. Foi tudo pensado até
os mínimos detalhes…

Helio tira outra carta do monte da direita e a coloca
embaixo, oposta à anterior. É o Mundo, carta 21.

HÉLIO
Você sempre quis muito esse cara…
E um filho dele…

Helio tira outra carta e a coloca do lado esquerdo das
cartas centrais. Ele ri alto.

HÉLIO
Haha! Mais eis que então outra
mulher aparece! Do nada! E contra
todos os seus planos, não é
Beatriz? Ela também é forte como
você, bonita…

Beatriz se inquieta na cadeira.

HÉLIO
O que mais você deseja é se livrar
dessa mulher, não é, Beatriz?

Uma das velas do castiçal se apaga no momento em que  Hélio
ia puxar mais uma carta. Ele faz uma pausa teatral, olha
para a vela, olha para Beatriz que se move, inquieta. Hélio
puxa finalmente a carta e a coloca do lado direito, oposta á
anterior. É a Morte, a carta 13.

HÉLIO
Você quer que ela morra, não é,
Beatriz?

Beatriz parece surpresa. Dalva está boquiaberta.

BEATRIZ
Não…

HÉLIO
As cartas não mentem, Beatriz…
Mas nós podemos fazer um
trabalho…

Hélio aponta para as imagens da Pomba Gira e do Zé Pilintra
atrás dele.

BEATRIZ
Não!

Beatriz se levanta indignada, desmancha o jogo sobre a mesa,
algumas cartas chegam a cair no chão. Em seguida, ela sai
pela porta afora. Dalva se levanta. Hélio também. Ele chega
na porta do “escritório” quando o rapaz sem camisa já está
abrindo a porta de saída para Beatriz. Hélio grita para
Beatriz, rindo.

HÉLIO
As cartas não mentem, Beatriz. Elas
não mentem jamais.

Beatriz sai e Dalva finalmente sai atrás dela. Hélio segura
seu braço. Dalva pára.

HÉLIO
São duzentos reais, Dalva.

Dalva abre a bolsa mecanicamente, tem dificuldade em achar o
dinheiro, conta, dá às notas para Helio e sai correndo em
direção à porta. Helio acena com os dedos para ela.

HÉLIO
Obrigado, querida…

EXT. – RUA PRADO JUNIOR – FIM DE TARDE

Beatriz caminha a passos largos e irritados em direção à
praia. Bem mais atrás, Dalva tenta alcançá-la. venta muito e
o tempo começa a fechar. Longe, no mar, relampeja. Beatriz
passa por um grupo de prostitutas e travestis. Quase na
Avenida Atlântica, Dalva alcança Beatriz e as duas seguem
juntas. Beatriz acena para um táxi e as duas embarcam. Os
sinais de que um temporal se avizinha são evidentes.

INT. – CASA DE BEATRIZ – NOITE

Beatriz está de roupão, uma toalha enrolada nos cabelos,
sentada no sofá da sala. Ouve um jazz “bem Lula” e contempla
de longe as fotos e objetos que marcam a presença dele na
casa. Lá fora, chove e já se ouvem os primeiros trovões. De
repente, pega o celular e liga.

BEATRIZ
Oi, Guga…

A expressão de Beatriz vai mudando rapidamente se tornando
ao mesmo tempo tensa e resoluta.

BEATRIZ
O quê? Meu Deus! Isso! Vai, vai
correndo. Eu encontro você lá! É só
o tempo de eu me vestir. Só me
repete o endereço…

Ao mesmo tempo em que fala no celular, Beatriz já está se
encaminhando para o quarto, largando as roupas pelo caminho.

BEATRIZ
OK, eu encontro você lá, meu amor.

INT. – CASA DE MARINA – NOITE

Marina está deitada no sofá da sala. Lula está de pé ao lado
dela. Beatriz entra esbaforida, os cabelos molhados.

BEATRIZ
Oi! Vim o mais depressa que eu
pude… Desculpe, Marina, eu ir
entrando assim, mas a porta estava
aberta…

LULA
Eu acabei de chegar… Eu deixei a
porta aberta pra você.

MARINA
Obrigada, Beatriz, por vir… Eu
sempre quis conhecer você, mas
jamais imaginei que seria assim…

BEATRIZ
Pois é, já era tempo mesmo… Mas
como você está? Que história é essa
de sangramento?

MARINA
Não sei… Mas talvez o Louie tenha
assustado você à toa… De qualquer
maneira, acho que seria bom a gente
dar um pulo no hospital.

LULA
Isso é claro! Vamos pra lá agora.

MARINA
Mas já viu como chove?

LULA
Vamos assim mesmo…

BEATRIZ
Você está de carro?

LULA
Não. Estava tudo engarrafado,
preferi vir a pé mesmo.

MARINA
Bom, então vamos lá…

Marina tenta se levantar, fica tonta e quase cai de novo no
sofá, mas é amparada por Lula e, logo em seguida, por
Beatriz.

MARINA
Estou tonta…

Beatriz olha para o chão e alarmada olha para Lula e aponta
para o chão. Só então ele vê uma pequena poça de sangue que
vai se avolumando a cada gota que pinga das pernas de
Marina.

LULA
Vamos embora! A gente pega um táxi
lá embaixo.

EXT. – RUA DE MARINA – NOITE

Muita chuva, trovões e relâmpagos. A rua está engarrafada e
não há táxi vazio. Fosse como fosse, o trânsito está parado.
Lula e ampara Marina e Beatriz, abraçada com ela, segura o
guarda-chuva para as duas.

LULA
O jeito é a gente ir à pé. O
hospital fica há três quadras
daqui.

BEATRIZ
Sim, vamos…

Eles começam a caminhar com alguma dificuldade quando Lula
vê Zeca passar do outro lado com seu triciclo. Lula acena
para ele.

LULA
Zeca! Zeca! Vem cá! Vem cá
depressa!

Zeca vê Lula, manobra entre os carros e encosta na calçada.

ZECA
O que houve, Lula?

LULA
Me ajuda, cara! Eu preciso levar
essa moça no hospital agora e está
o maior engarrafamento.

ZECA
Entendi! Deixa comigo! Coloca ela
no triciclo que eu levo!

Zeca sobe com o triciclo na calçada e salta para ajeitar os
garrafões vazios para acomodar Marina.

BEATRIZ
Eu vou com ela. Posso?

ZECA
Claro! É até melhor! Sobe!

Lula e Zeca ajudam as duas a subirem e se acomodarem no
triciclo.

LULA
Você sabe onde é o hospital, não
sabe?

ZECA
Sei, sim. Fica tranquilo. Eu chego
lá rapidinho.

LULA
Então vai indo. Eu encontro vocês
lá ou alcanço vocês no caminho. Vou
pegar a bicicleta dela na garagem.

ZECA
OK, meu irmão!

Zeca sai pedalando o triciclo entre os carros e Lula corre
de volta para pegar a bicicleta de Marina na garagem do
prédio dela.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM:

1. Zeca passando com o triciclo entre os carros, com Marina
quase deitada no colo de Beatriz que segura o guarda-chuva.

2. Zeca corta caminho pela calçada.

3. Zeca de novo na rua. Ao longe, Lula se aproxima de
bicicleta.

4. Lula de bicicleta entre os carros.

5. Zeca para num sinal. Marina fala com o guarda que
imediatamente pára o trânsito e facilita a passagem do
triciclo.

6. Lula passa de bicicleta logo em seguida.

7. Lula ultrapassa o triciclo e segue em frente.

8. Lula chega no hospital, larga a bicicleta e aciona a
emergência.

9. O triciclo chega e já há enfermeiros esperando. Enquanto
Marina e Beatriz são tiradas do triciclo, a maca chega.

CORTA PARA:

INT. – CORREDOR DO HOSPITAL – NOITE

A maca com Marina corre pelos corredores com Lula e Beatriz
ao lado dela. Finalmente, a maca passa para um setor onde a
presença de Beatriz e Lula não é permitida.

CORTA PARA:

INT. – SALETA DE ESPERA DO HOSPITAL – NOITE

Beatriz e Lula ficam numa espécie de sala de espera com dois
sofazinhos pequenos um em frente ao outro com uma mesa baixa
entre eles. Uma imagem de Nossa Senhora da Glória domina a
parede do fundo, numa prateleira alta. Lá fora, continua
chovendo forte e relampejando. Uma médica entra na saleta e
conversa com os dois  rapidamente e sai. Beatriz e Lula se
abraçam e depois se sentam. Depois de um tempo, Beatriz se
levanta e se põe diante da imagem.

BEATRIZ (V.O.)
Ah, Minha Nossa Senhora, você que é
mãe, salva essa criança… Não
deixe que a Marina e o Lula percam
o filhinho deles… E Jesus que é
Deus e também já foi bebê sabe que
eu nunca desejei o mal nem dela nem
desse bebê… Ah, menino Jesus, não
deixe que eles morram, por favor…

A chuva escorre e estala forte no vidro da janela.

FUSãO PARA:

INT. – SALETA DE ESPERA DO HOSPITAL – NOITE

A chuva parou e pelo vidro da janela já se ve a lua e as
estrelas entre nuvens esparsas. Lula levanta e abre a
janela. Beatriz também se levanta e se acomada ao lado de
Lula na janela. A médica entra na sala.

MéDICA
Boa noite!

Os dois se voltam.

LULA
Como ela está, doutora?

MéDICA
Ela está bem e não corre nenhum
perigo. Nem ela, nem o bebê.

BEATRIZ
Graças Deus!

MÉDICA
Mas a partir de agora ela vai ter
que se cercar de cuidados
especiais. Ela tem o que a gente
chama de placenta baixa o que a
expõe a uma série de riscos que
podem ocasionar a perda do bebê.
Então será preciso o máximo de
cuidado e repouso.

LULA
A gente pode vê-la?

MÉDICA
Podem, rapidinho. Ela está
dormindo… Ela vai passar a noite
aqui, por precaução.

BEATRIZ
A gente pode ficar também?

MéDICA
Ela tem direito a um acompanhante.

LULA
Eu fico com ela, Beatriz.

BEATRIZ
Ah, eu quero ficar também…

MéDICA
Você também precisa descansar. Bem,
vocês querem vê-la?

LULA
Sim, vamos.

INT. – QUARTO DE HOSPITAL – NOITE

Beatriz e Lula observam Marina que parece dormir
serenamente. De repente, Marina sorri discretamente como se
sonhasse. Em seguida, seus olhos se entreabrem ligeiramente.

MARINA
Obrigado, Louie… Obrigado,
Beatriz…

Beatriz e Lula se aproximam e os dois estendem
simultaneamente as mãos para pegar na mão que Marina erguera
ligeiramente. Então ficam os três de mãos dadas.

BEATRIZ
Nós vamos ficar com você aqui
hoje…

MARINA
Deixe que o Lula fica… Você
também precisa descansar, Beatriz.

LULA
É verdade, Bia…

MARINA
Eu vou ficar mais tranquila sabendo
que você vai estar em casa,
descansando…

BEATRIZ
Está bem. Mas amanhã cedo eu venho
buscar você…

MARINA
Combinado…

INT. – CASA DE MARINA- DIA

Marina está deitada na cama, o quarto enfeitado de flores e
inundado de sol. Biku está deitada ao pé da cama, Lula
sentado na cama procurando algo na TV. Beatriz entra no
quarto. Traz o almoço em uma bandeja. Marina se acomoda na
cama para recer a bandeja.

MARINA
Vocês estão me mimando muito!

LULA
Nada disso! Recomendações médicas.

BEATRIZ
Isso mesmo, mocinha… Você tem que
comer e descansar por uns dias. E
depois…

LULA
Seus dias de bodyboogie estão
contados!

BEATRIZ
Ao menos durante a gravidez!

LULA
Claro! Prometo a você que a
primeira coisa que a gente vai
fazer depois que o bebê nascer vai
ser pegar umas ondas no Arpoador!

MARINA
Fechado! Mas vai ser dificil eu me
acostumar com essa vida…

BEATRIZ
São só mais seis meses…

LULA
Vão passar voando…

MARINA
Pena que não pode ser nadando…

BEATRIZ
Caminhando dá…

LULA
Meninas, eu tenho de ir!
“Copacabana” mal conseguiu andar
esses dias sem mim.

BEATRIZ
Vai, Pretensão. Eu fico com a
Marina até você voltar.

Lula beija as duas e sai.

FUSãO PARA:

INT. – CASA DE MARINA – DIA

O quarto de Marina está escurecido pelas cortinas puxadas e
ela dorme. Beatriz está deitada ao lado dela, lendo. Beatriz
está lendo “O céu que nos protege”, de Paul Bowles. De
repente, Marina se agita como se sonhasse. Beatriz então
larga o livro, ajeita-se, sentando ao lado dela na cama e
começa a afagar sua têmpora e sobrancelha com extremo
carinho e delicadeza.Marina solta um longo suspiro e parece
relaxar. Beatriz sorri. Alguns instantes depois, Marina
acorda. Olha para Beatriz com uma expressão perplexa e
depois sorri.

MARINA
Sonhei…

BEATRIZ
Com quê?

MARINA
Não lembro… Não sei se era uma
praia ou um deserto…

BEATRIZ
Foi ruim?

MARINA
Não, acho que não…

BEATRIZ
Você se mexeu umas vezes…

Marina sorri. As duas ficam se olhando longamente.

BEATRIZ
Sabe, Marina, ontem à noite, eu me
dei conta que o seu filho é irmão
dos meus filhos. Que o sangue que
corre aí dentro é o mesmo ou quase
o mesmo do que o sangue que corre
dentro de mim. É uma coisa meio
óbvia, mas eu simplesmente ainda
não tinha me dado conta dessa coisa
tão simples e ao mesmo tempo tão
bonita… Isso me deu um conforto
que eu não sei explicar. É como se
eu de repente eu percebesse que as
coisas estão todas ligadas , que
todos nós somos como que parentes
uns dos outros, mas não só a gente
entre si, mas tudo mais, os bichos,
as plantas, as pedras, o mar, os
rios, a lua, os planetas, as
estrelas, tudo. Sabe, Marina, eu
não tive irmãos… Minha vida
sempre foi dura – em todos os
sentidos. Minha mãe é uma pessoa
boa, mas foi sempre uma
porra-louca, imatura, infantil
mesmo. Meu pai eu nunca vi. Ele é
só um retrato na gaveta. Essa é uma
das identidades que eu tenho com o
Guga, sabe? Mas o pai dele é uma
lembrança boa. Porque há ao menos o
consolo de que ele morreu. O meu,
não. O meu sumiu mesmo. Foi embora
e nunca mais voltou.Ontem de noite
eu percebi que você não é uma
rival, uma inimiga, um obstáculo
para a minha felicidade. De
repente, eu percebi que você já é,
queira eu ou não – uma espécie de
irmã minha. Ou sei lá que
parentesco novo nos une que ainda
não consta nos dicionários.E isso
foi me dando uma calma, uma
tranquilidade sobre o futuro… Eu
senti pela primeira vez na minha
vida que não preciso mais me
preocupar com como o futuro vai
ser, porque eu agora já sei que
seja como for, vai ser bom. Sabe, a
coisa que eu mais quis durante toda
a minha vida foi uma família. Uma
família igual a de todo mundo. Eu
nunca disse isso para ninguém, que
eu lembre. Porque dizer isso seria
de algum modo magoar minha mãe,
mostrar a ela quem ela de fato era,
quando ela, na verdade, não tinha
como ser melhor. Mas era também ter
de admitir que eu tinha inveja das
minhas amiguinhas porque elas
tinham um pai e uma mãe. Um pai e
uma mãe normais, comuns, iguais a
todos os pais e mães do mundo que
eu via na TV. Então eu ficava
calada, quieta, na minha. Nunca fui
de ir para a casa dos outros,
sabia? Eu não gostava. Desde que eu
me entendo por gente eu sempre
preferi a minha vida, mesmo achando
que ela era pior do que a dos
outros. Mas era a minha vida e eu
desde cedo percebi que eu tinha de
aceitá-la como ela era. Acho que
por isso, por esse esforço
silencioso e obstinado, eu sempre
gostei de tudo: da minha mãe com as
loucuras dela, da nossa casa
apertada, da nossa dureza, da minha
solidão. Eu comecei a trabalhar
muito cedo, estudei e trabalhei
assim que pude, então nunca tive
muito tempo para me dedicar à
solidão. O que foi muito bom. Por
isso, quando o Guga me contou sobre
você minha primeira reação foi
desejar que você não existisse. Sei
lá… Nunca, nunca desejei mal a
você, mas a primeira coisa que eu
quis foi que você se desfizesse no
ar como uma miragem… Você já viu
uma miragem? Eu já… Eu custei a
me dar conta que você também estava
grávida – como eu. Que dentro de
você também pulsava uma vida e que
você era uma mulher – como eu. Eu
sou muito orgulhosa, sabe? No
fundo, no fundo – é medo, medo do
abandono, eu sei. Mas o abandono na
minha vida, ele já aconteceu – lá
no começo – e foi tudo que restou
do meu pai. Então não adianta, não
adianta pensar a vida segundo essa
medida. Mas vai dizer isso para o
seu coração? Quando você menos
espera, quando você mais precisa,
esse medo se instala. E aí, Marina,
eu não choro. Eu luto – porque tudo
que eu sei é que eu não posso
perder, ao menos não sem lutar.
Porque eu aprendi que quem luta
pode até perder, mas não perde
tudo. Eu não sou má. Sempre fui
justa e me fiz forte. Então aos
poucos eu fui aceitando você
silenciosamente e contra a minha
vontade. Até que naquela noite em
que a gente foi parar no hospital
eu percebi, eu senti, que aceitar
só não bastava. Eu também tinha que
querer que você existisse, que você
vivesse e fizesse parte da minha
vida. Porque a vida que você traz
dentro de você é a mesma que eu
trago dentro de mim. Eu amo o Guga.
Você sabe disso. E pode parecer
maluco o que eu vou dizer, mas se
não fosse você talvez eu jamais me
desse conta do quanto eu o amo. Ou
talvez seja ainda mais louco: você
ter aparecido fez com que o meu
amor por ele desabrochasse de vez.
Florisse. Não por alguma espécie de
competição ou antagonismo a você.
Não, nada disso. Pelo contrário:
você fez com que eu tivesse que me
render a esse amor. Pela primeira
vez eu percebi essa coisa
assustadora, apavorante mesmo, que
é a incondicionalidade do amor
verdadeiro. Eu amo o Guga, Marina.
Mas eu posso dizer de todo coração
que eu também amo você.
Beatriz abraça Marina. As duas
ficam assim abraçadas logamente.

INT. – CASA DE BEATRIZ – NOITE

Beatriz abre a porta e dá de cara com Lula escondido atrás
de um enorme buquê de flores. Ela abre caminho entre as
flores até achar o rosto dele do outro lado.

LULA
Te amo.

Beatriz beija Lula entre as flores e se beijando os dois vão
entrando em casa e se abraçam com o enorme buquê entre eles.

BEATRIZ
Eu também amo você.

LULA
Nós vamos ser muito felizes.

BEATRIZ
Sim, vamos. Nós todos. Uma enorme
família. Quase que só de mulheres.

LULA
É verdade… Mas eu estou falando
de nós dois.

BEATRIZ
Nós sempre fomos felizes, Guga.
Sempre. Desde o primeiro dia.
Porque eu sempre amei você como
você é. E você sempre me amou como
eu sou. Ainda que ninguém saiba
muito bem como é…

LULA
É por isso que dizem que o amor é
cego…

Assim abraçados, sem desgrudar um do outro, eles vão
caminhando para o quarto.

BEATRIZ
Então deve ser essa cegueira que
deixa o tato da gente assim tão…
sensível.

LULA
E a audição também…

BEATRIZ
Você pode ouvir meu coração?

LULA
Como se fosse o meu…

FUSãO PARA:

INT. – QUARTO DE BEATRIZ – NOITE

Flores esmagadas sobre a cama. Muitas flores. À luz
tremeluzente de velas, Beatriz arruma as flores que restaram
num vaso. A luz do quarto vai crescendo: é Lula acendendo
outras velas.

WILSON (V.0.)
Duas mulheres… Essa é a fantasia
de todos os homens.

FUSãO PARA:

INT. – CASA DE MARINA – DIA

Lula e Marina tomando café da manhã na cozinha. Ele brinca
de dar comida para Biku e Marina finge brigar com ele.

LULA (V.O.)
Sabe que eu nunca tive essa
fantasia? Incrível…

WILSON (V.0.)
No fundo, você é um romântico…

LULA (V.O.)
E sabe que às vezes eu me sinto até
um pouco triste sabendo que
enquanto eu estou com uma a outra
está sozinha?

FUSãO PARA:

INT. – CASA DE MARINA – DIA

Lula no celular, de pé, na janela da sala.

CORTA PARA:

INT. – CASA DE BEATRIZ – DIA

Beatriz no celular, esparramada na cama.

LULA (V.O.)
E acho que elas também, sabia?

CORTA PARA:

INT. – CASA DE MARINA – DIA

Marina pega o celular e fala animadamente com Beatriz.

CORTA PARA:

INT. – CASA DE BEATRIZ – DIA

Beatriz falando no celular com Marina salta da cama e começa
a se aprontar para sair.

LULA (V.O.)
Outro dia foi muito legal…

CORTA PARA:

EXT. – LUGAR DAS FOTOS – DIA

Lula, Marina e Beatriz estão no mesmo lugar das fotos da
cena 4 e 38. Eles riem à mesa, na tarde ensolarada. Beatriz
chama o mesmo garçom amigo das cenas anteriores e começa a
explicar como ela quer que ele tire uma foto, mas ele
gesticula como que dizendo que já sabe. O próprio garçom
orienta os três para que caibam todos nas fotos.

SEQUÊNCIA DE MONTAGEM de fotos da cena com pequenas
variações de pose.

MARINA
Quarta-feira chegam minha avó, meu
pai, minha mãe e meu irmão. Vêm me
ver e querem conhecer “o pai do meu
filho”.

LULA
E a família toda!

MARINA
É! Só que eles ainda não sabem como
ela é grande!

BEATRIZ
Nem desconfiam?

MARINA
Não… Nem imaginam.

LULA
Ah! Mas eu acho que o melhor é todo
mundo ir logo se acostumando com a
idéia…

MARINA
Também acho! A gente não tem o que
esconder.

BEATRIZ
Vai ser engraçado…

MARINA
Ah, vai…

CORTA PARA:

INT. – CASA DE AUGUSTA – NOITE

Noite de festa na casa de Augusta. Todas as famílias
reunidas: a de Beatriz – com o namorado de Dalva junto; a de
Lula – Claudio incluído; e a de Marina – inclusive o pai,
que se agregou à comitiva na última hora. São 11 convidados:
Lula, Augusta e Claudio. Beatriz, Dalva e seu namorado,
Toninho Batuta, ex meio-campo do Flamengo nos anos 70/ 80,
um negro sessentão, em forma, presença certa nas redes de
futivolei do Posto 6. Marina, sua avó, Heloísa, uma mulher
um pouco mais velha que Augusta, mas com o mesmo espírito ou
até mais rebelde; a mãe de Marina, Dora, uma quarentona
bonita e careta, o pai de Marina, Carlos, um cinquentão
muito formal e circunspecto, e o irmão de Marina, Waldemar,
um jovem de 17 anos, do tipo místico, ares de vidente, muito
branco e longos cabelos.

LULA (V.O.)
Não se preocupem. Dona Augusta dará
um jeito de reunir todos num
jantar… Já consigo ver a cena…

MARINA (V.O.)
Consegue? Você não tem idéia de
como meu pai pode ser rígido… E
preconceituoso…

BEATRIZ (V.O.)
Já posso imaginar o olhar dele para
minha mãe… E para seu mais novo
namorado… Um negão de quase dois
metros…

MARINA (V.O.)
Uau! Em compensação sua mãe vai
adorar meu irmão… Ele é todo
esotérico, estudioso…  E vidente,
sabia?

LULA (V.O.)
Então certamente a Dalva vai ficar
louca com ele!

BEATRIZ (V.O.)
E sua mãe, Marina? Temos alguma
chance?

MARINA (V.O.)
Quase zero…

LULA (V.O.)
Uma verdadeira zebra!

MARINA (V.O.)
Quase literalmente… Meu pai, sim,
pode ser uma grata surpresa… mas
eu coloco todas as minhas fichas na
minha avó…

BEATRIZ (O.S.)
Por tudo que você já contou, ela
vai se dar bem com a Augusta…

LULA (V.O.)
E com o Claudio também!

MARINA (V.O.)
Não duvido nada que eles já se
conheçam…

BEATRIZ (V.O.)
É, vai ser mesmo engraçado…

MARINA (V.O.)
E tenso…

LULA (V.O.)
Já disse para vocês não se
preocuparem… Minha mãe é mestra
em situações como essa…

Augusta começa a conduzir os convidados para a sala de
jantar. Há um bufê e dois garçons. Os lugares são marcados e
Augusta orienta ou conduz seus convidados para suas
cadeiras. A disposição é: na cabeceira, Augusta. Do seu lado
direito, Beatriz, Heloísa (a avó de Marina), Toninho Batuta,
Dora (a mãe de Marina) e Lula. Do lado esquerdo de Augusta,
Marina, Cláudio, Waldemar (irmão de Marina), Dalva e Carlos
(pai de Marina).

FUSãO PARA:

Todos os convidados dispostos em seus lugares e o jantar já
em andamento. Dora fala para Lula:

DORA
Eu acho Vitória um nome lindo…

Heloísa fala para Toninho Batuta:

HELOíSA
Eu lembro de um gol seu contra
contra o Cruzeiro… Que raiva, Meu
Deus!

Augusta pega nas mãos de Marina e Beatriz e diz para as
duas:

AUGUSTA
Eu estou ganhando duas filhas e
três netas…

Waldemar fala para Claudio:

WALDEMAR
Eu o vejo bem aí, de pé, do seu
lado…

Dalva fala para Carlos:

DALVA
Carlos, com essa confusão toda, a
gente se tornou parente?

Toninho fala para Dora:

TONINHO
E, no fim das contas, eu acabei
cunhado da Grace Kelly..

Beatriz fala para Heloísa:

BEATRIZ
Já dá para entender porque a Marina
gosta tanto de você…

Cláudio fala para Marina:

CLAUDIO
Vou contar um segredo pra você: eu
nunca imaginei que iria gostar
tanto de ser avô.

Waldemar lê a mão de Dalva.

DALVA
Você tem certeza que está vendo
casamento escrito aí?

Lula e o pai de Marina se encaram. Lula se levanta para um
discurso.

LULA
A felicidade pode chegar de
repente, de uma forma inesperada.
Há alguns meses, eu era um menino,
um menino velho. Hoje, por causa
dessas duas mulheres maravilhosas,
eu me tornei um homem, um homem
jovem, que vem descobrindo em si
mesmo qualidades que não conhecia.
Todos os dias, Marina e Beatriz me
trazem notícias novas de mim.
Dentro delas, cresce o amor, o amor
que nos nutre e nos une mais e mais
a cada dia. Já somos uma familia.
Nós três, nós seis. Elas me
ensinaram que estamos todos
condenados ao amor. Que tudo que
sentimos é amor. E somente amor.
Porque é o amor que geramos que
alimenta as estrelas. Então não
podemos fazer nada a não ser zelar
pela qualidade desse amor. Para que
ele não se torne ódio, inveja,
ciúmes, raiva – mas amor, amor
simplesmente, incondicional, por
tudo e por todos. Porque, elas –
essas cinco mulheres que existem
ali misteriosamente bem diante de
nós – me ensinaram que ou nós
amamos todos ou não amamos ninguém.
Então eu quero dizer a vocês que
meu único compromisso nesta vida é
retribuir a essas mulheres toda a
felicidade que elas me dão. Vocês
pode, sim, tranqüilizar seus
corações porque, eu prometo, nós
seremos felizes. Nós já somos
felizes. Obrigado.

O pai de Marina se levanta:

CARLOS
Eu gostaria de dizer algumas
palavras também… Serei breve. Não
posso dizer que cheguei aqui
contente. O destino que nós
imaginávamos para nossa filha era
outro. Espero que me perdoem a
franqueza, ela inclusive. Eu sei
que terei que trabalhar muito esse
sentimento dentro de mim, mas quero
dizer que agora, neste momento, eu
me sinto contaminado por esse amor
de vocês e ele me enche de
otimismo.

Cláudio também pede a palavra:

CLAUDIO
Na qualidade de padrinho do noivo,
eu queria dizer que por mais
inusitiado que seja tudo isso é
impossível não acreditar na
felicidade estampada no rosto de
cada um de vocês, Marina, Beatriz,
Lula. Eu também estou muito, muito
feliz e só não falo mais porque já
estou quase chorando…

Toninho Batuta inesperadamente se levanta:

TONINHO
O Acaso me trouxe hoje aqui. E foi
o Acaso que uniu a vocês e é sempre
no Acaso que a gente sente mais
forte a presença de Deus. Então,
Beatriz, apesar de eu não ser mais
do que o namorado de sua mãe, eu
quero dizer que eu também me sinto
muito unido a vocês nesse momento e
orgulhoso por vocês estarem
conseguindo construir algo tão
bonito.

Finalmente, é Waldemar quem se levanta timidamente. Um
silêncio inesperado se faz. Waldemar se dirige a Lula:

WALDEMAR
Seu pai está me pedindo para dizer
que ele está muito feliz com
vocês…

Cláudio se levanta de novo.

CLAUDIO
Então é a hora certa de pegar o
violão do meu parceiro imortal e
lembrar algumas de nossas
músicas…

Augusta também se levanta.

AUGUSTA
Grande idéia, Cláudio.. Vamos
passar para a outra sala então…
Que tal um cafezinho enquanto o
Cláudio se prepara para tocar?

No caminho para a sala de estar, Augusta emparelha com
Waldemar e sussura em seu ouvido:

AUGUSTA
Diga a ele que eu ainda sinto muita
saudade… E mande um beijo também.

INT. – SALA DE ESTAR DE AUGUSTA – NOITE

Lula ao piano e Claudio ao violão numa cadeira, Cláudio e
Carlos sentados em cadeiras ao redor formam um grupo.
Beatriz, Marina e Dora formam outro grupo, com Dalva e
Waldemar próximos, mas conversando à parte. Augusta e
Heloisa mais destacadas conversam, observando a festa.

HELOÍSA
Você está de parabéns, Augusta. Seu
jantar superou minhas expectativas
mais otimistas…

AUGUSTA
As minhas também, Heloísa. Agora,
minha querida, é rezar e torcer
para tudo dar certo…

HELOÍSA
Eu tenho fé que dará. Ainda que,
para nós, tudo isso esteja um pouco
além da compreensão imediata…

AUGUSTA
É verdade! Eu vivia cobrando netos
do Luis Gustavo, mas jamais poderia
imaginar uma história assim… Mas,
ele me disse que você tem um Di na
sua casa aqui do Rio… Venha,
quero mostrar a você o meu…

Augusta e Heloísa passam por Dalva e Waldemar. Dalva puxa
Beatriz pelo braço e ela, que está com Marina e Dora, se
volta para ela.

DALVA
Beatriz, minha filha… O Waldemar
está dizendo que eu vou casar…

BEATRIZ
Que bom, mamãe! Assim minha filha
vai ganhar mais um avô…

DALVA
Mais um avô! Quantos já são? Que
família louca… (Para Waldemar)
Até o pai do Lula está aqui, não
está? (Para Beatriz) Ele é avô
também, não é? Muito louco…

Ao piano, Lula toca Some Day My Prince Will Come. Lá fora, a
lula cheia domina o céu.

CLOSE UP – LUA CHEIA

Some Day My Prince Will Come ao piano continua em BG.

SEQUÊNCIA DE PLANOS das fases da lua passando em sucessão
acelerada: cheia, minguante, nova, crescente, cheia, etc.
Três vezes, terminando em uma lua crescente ainda no início.

CORTA PARA:

INT. – QUARTO DE MARINA – NOITE

O quarto de Marina agora é dominado por uma cama super king
size onde estão confortavelmente acomodados os três: Marina,
Beatriz e Lula. Uma tv enorme ocupa a parede em frente. Uma
pilha de dvds ocupa parte da mesinha de cabeceira ao lado de
livros sobre figurino. Uma pilha de livros está ao lado da
poltrona. Uma mala de viagem de Beatriz (ver cena 34) está
num canto ao lado da mochila de Lula. Há papéis espalhados
no chão e na cama, e o laptop de Lula está sobre uma bandeja
de cama no chão, ligado, em frente a umas almofadas. Os três
estão deitados vendo um filme, Lula no meio das duas, Marina
mais aconchegada em seu ombro, Beatriz comendo pipoca, quase
sentada.

BEATRIZ
Dia 24 de setembro vai ser lua
cheia…

MARINA
Tomara que Vitória também nasça
numa lua cheia…

BEATRIZ
Seria o máximo…

LULA
Seremos uma família de lunáticos!

MARINA
O Bando da Lua…

LULA
Ou a banda da Lua! Se elas todas
derem para música, fico eu velhinho
ao piano e cada uma em um
instrumento…

BEATRIZ
E a gente no backing vocal…

LULA
Shhh! Olha o filme!

FUSãO PARA:

INT. – QUARTO DE HOSPITAL – DIA

Beatriz deitada na cama espera a hora de ser conduzida para
cesariana. Marina e Lula estão com ela.

MARINA
Ai, eu estou tão nervosa!

BEATRIZ
Sossega, menina! Assim você me
deixa nervosa também. Até parece
que é você.

LULA
Logo, logo vai ser…

Augusta e Dalva entram no quarto. Beijam Lula e Marina.

AUGUSTA
Pronta? Você está ótima! Não demora
muito e este quarto vai estar cheio
de gente nova…

DALVA
Quanto tempo demora? Eu estou louca
para ser avó de uma vez!

Entra o médico. Saúda a todos e se dirige a Lula.

MéDICO
Você vai assistir?

LULA
Vou.

MéDICO
Então vamos.

Entram uma enfermeira e o maqueiro. Depois de uns breves
procedimentos, saem Lula, a maca com Beatriz, o médico e a
enfermeira. Augusta e Marina se olham e se abraçam em
seguida. Dalva se junta às duas em um abraço.

MARINA
Eu acho que eu vou ter um troço.

AUGUSTA
Não! Eu acho que você vai ter é um
filho! Dalva! Chama uma
enfermeira… Essa menina está
entrando em trabalho de parto!

SEQUÊNCIA DE PLANOS:

1. Beatriz na sala de parto com Lula.

2. Marina sendo conduzida para um quarto.

3. O parto de Beatriz avança.

4. Marina sendo atendida por um médico e enfermeiras.

5. Beatriz na sala de parto. Lula controla seu nervosismo.

6. Médico conversa com Dalva e Augusta no quarto de Marina.

7. Nascem as crianças de Beatriz.

8. Marina sai de maca para uma cesariana de emergência.

9. Maca de Beatriz sai da sala de parto. Lula vai junto.

10. As macas de Beatriz e Marina se encontram no corredor.
Lula hesita um instante e segue Marina.

11. Beatriz é recebida no quarto por Augusta e Dalva.

12. Marina na sala de parto com Lula.

13. Beatriz recebe suas crianças no quarto.

14. A filha de Marina nasce.

CORTA PARA:

INT. – QUARTO DE LULA – NOITE

O quarto de Lula é ocupado por uma cama super king size
igual àquela do quarto de Marina (cena 85). Também há muitas
coisas – livros, dvds, malas – espalhadas pelo quarto,
denotando que ele vem sendo ocupado pelos três. Uma enorme
tv domina a parede em frente. Na cama, estão
confortavelmente instalados Marina, Lula, Beatriz e os três
bebês. Todos vêem um filme na TV atentos e em
silêncio.legendas aparecem indicando o nome de cada bebê:
Vitória, Enrica e Antonia.



NARRADOR (V.O.)
E assim acaba a história de como
Lula, Beatriz e Marina conseguiram
construir uma família e serem a seu
modo felizes… para sempre? Sim,
sim: para sempre. Porque a vida,
dará muitas voltas, mas o amor, o
amor é para sempre. E quem cresce
no amor, torna-se livre. Mas, como
muita gente acha que uma história
de amor com final feliz tem sempre
que acabar com um casamento, então
não custa nada lhes fazer a
vontade.

CORTA PARA:

INT.- IGREJA – DIA

Uma noiva toda de branco e com uma longa grinalda entra na
igreja ao som da marcha nupcial. Ela avança lentamente, de
braço dado com um senhor. Quando finalmente alcançam o
altar, o noivo é Toninho Batuta que recebe a noiva. E a
noiva é Dalva.

FADE OUT

FIM